Ler e escrever: uma questão de mediação

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“Não meu, não meu é quanto escrevo.

A quem o devo?”

Fernando Pessoa

 

Leitura e escrita se constituem o verso e o reverso da mesma moeda, ou seja, única trama: dois processos.

Ler e escrever são processos intimamente relacionados. Se ler é recriar, interpretar. Escrever é também interpretar, expressar uma determinada leitura que fazemos da vida.

Escrever é, portanto, um ato de recriação de idéias que borbulham em nossas mentes — registros de leituras anteriores. Escrevemos influenciados pelas leituras que realizamos, onde as leituras de mundo e o mundo das leituras se fundem no recôndito de nossas memórias, e, se houver oportunidade de explorarmos nossa imaginação criadora, afloram no mundo simbólico da palavra transformada em discurso.

Assim sendo, ler e escrever não devem ser vistos apenas como um instrumento de acesso ao saber socialmente aprovado e sistematizado. Não devem jamais ser entendidos e concebidos como um ato mecânico de combinações entre sons e signos gráficos.

À escola compete não só o repasse e a socialização do saber instituído, mas, antes de tudo é preciso buscar uma praxis que tenha como ponto de partida a linguagem oral sem, entretanto, centrar-se apenas nela. A linguagem e a expressão oral devem constituir-se no passaporte para o mundo da escrita.

Ao professor caberá a responsabilidade de tolher, na linguagem oral, o seu papel autoritário e castrador do processo de criação no tocante à produção oral e escrita dos alunos, dispensando os “circule”, os “complete”, os “faça”, mas fazendo uso dela como instrumento coletivo de aprendizagem.

Assim, o ler e o escrever, na trama que tece o texto, passam da ação solitária à ação solidária entre professor e alunos. Desse modo, o professor passa a atuar como mediador no processo de construção da leitura e da escrita de seus alunos, evitando, assim, o assassinato do desejo e da vontade de ler e escrever inerentes a toda criança que adentra a escola prenhe de sonhos, de imaginação e do prazer que requer um espaço lúdico.

Para exemplificar o tratamento dado à leitura e à escrita pela maioria das escolas, relato a história de Maria, de autoria de Augusto Jones Luiz e outros, objetivando despertar no professor o repensar a sua prática pedagógica para que os alunos sob sua responsabilidade não venham a ter o destino da Maria e do João.

“Em algum lugar deste imenso Brasil, num tempo muito distante, nasceu uma menina chamada Maria. Ela era uma pessoa simples como quase todas as Marias deste país.

Era uma criança inteligente, criativa e feliz, até o fatídico dia em que seus pais resolveram matriculá-la na escola. Achavam eles que era chegada a hora de Maria aprender a ler, escrever e fazer continhas.

Então, a menina ingressa na escola. Estava muito ansiosa e contente; porém, percebeu que algo de muito estranho acontecia naquele lugar que todos afirmavam ser uma escola.

Maria queria aprender a escrever seu nome, brincar com as letras, mas a professora a obrigava a fazer bolinhas e completar pontinhos: — “Que coisa chata!” – pensava a menina, que simplesmente queria escrever. Ela adorava contar e inventar histórias e, quando aprendesse a escrever, tinha como sonho maior tornar-se uma escritora, dessas que escrevem poesias ou novelas, quem sabe!?

Finalmente chegou o grande dia! A professora decidiu que era o momento de aprender a escrever. “Que felicidade!” – pensava Maria – “Poderei escrever milhões de palavras!” – mas, pobre criança, logo percebeu que antes de escrever realmente, como tanto sonhava, tinha que ficar aprendendo as tais das familinhas separadamente.

O tempo passou e Maria, que gostava tanto de contar histórias, agora podia fazê-lo, pois já dominava a difícil técnica de ler e escrever. Mas, outra coisa a incomodava: as histórias quase sempre tinham um título definido pela professora e um modelo a ser seguido. Maria não queria isso. Ela era criativa, dinâmica. E mais: gostava de inventar histórias. Aquelas com títulos e modelos não tinham a menor graça em serem feitas.

O tempo passou mais ainda, e a pequena Maria transformou-se em uma adolescente e, na escola, começou a entender um pouquinho essa engrenagem da qual fazia parte. Já não se assustava mais quando percebia que as professoras não estavam interessadas em ouvi-la. Maria, que gostava tanto de ler, agora lia muito pouco e escrevia somente quando era obrigada. Tinha muita dificuldade de se expressar pela escrita, nas poucas vezes em que era solicitada. Tornou-se apática, desinteressada e inexpressiva no tocante à escrita. Que pena! Logo Maria que gostava tanto de contar e inventar histórias.

Como sempre, o tempo foi passando e a pobre Maria conseguiu fazer parte do seleto grupo de pessoas que fazem curso superior. Pais orgulhosos e família feliz. Maria iria ser pedagoga. Que engraçado! Logo Maria que lia e escrevia tão pouco.

Na universidade, Maria começou a passar por certas dificuldades. Alguns professores continuavam do modo que ela conhecia, entretanto existiam outros dos quais ela não gostava muito. A todo o momento queriam saber sua opinião, pediam que ela se expressasse através da escrita. “Que coisa chata!” – pensava Maria – “Não suporto escrever!”.

E o tempo que sempre voa chegou aos dias atuais; a menina Maria, há muito mulher, é professora do ensino primário em algum lugar deste país. Moldada pela escola que freqüentou e pela sociedade da qual faz parte, tornou-se exatamente aquilo que esperavam dela.

Faz alguns dias, tivemos notícias dela. Contaram-nos que é professora de uma primeira série de uma escola no interior deste Estado. Parece que, em sua sala de aula, existe um menino chamado João que adora contar e inventar histórias e não gosta de fazer as bolinhas e juntar os pontinhos das atividades que a professora Maria tão dedicadamente repassa…”.

 

Folha de Macau, Ano II, nº 19 outubro/novembro/1998