Ler e escrever – é só começar …

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“E era só querer, que eu fazia

cena atrás de cena só com

um gato-pingado. Ou sem nenhum.

Eu podia fazer um capítulo de

três linhas. Ou de três páginas.

Ou de trinta.

Nossa!

Querendo eu botava um barco dentro

do livro.

Eu botava bicho.

E ainda por cima fazia ele falar.

E fazia o barco chorar, tá bem?

Puxa, eu podia tudo.”

 

Lygia Bojunga Nunes

 

Este texto é bastante provocativo para o repensar os atos de ler e escrever na sala de aula.

É tão provocador que me reportou às minhas memórias concernentes às composições (tipo de redação) que me faziam viajar por lugares onde nunca andei; me faziam viver experiências fantásticas sem sair de minha carteira, num vôo que só a imaginação pode levar. Mas se estas lembranças fazem parte de minhas memórias é porque os atos de escrever e de ler sempre foram significativos em minha vida.

Atualmente, o ensino da Língua Portuguesa tem como objetivo fazer com que os alunos leiam e produzam textos. Entretanto, ao enveredar-me pelo árduo caminho da análise das situações da leitura e escrita proporcionadas pela escola, tropeço em idéias ultrapassadas acerca das questões de aprendizagem da escrita que desapareceram do discurso pedagógico, porém não desapareceram da prática e da vida da sala de aula.

Dentre essas idéias estão as de que o aluno não sabe nada sobre escrita até ser formalmente ensinado; e a de que o aluno ou aprende o que o professor ensina ou não aprende nada.

Ora, isto é uma falácia. A escrita é um objeto sócio-cultural de conhecimento e é usada pelos indivíduos socialmente organizados possibilitando ao aluno ter idéias sobre a escrita antes mesmo desta lhe ser formalmente ensinada.

Para que as atividades de sala de aula sejam realmente significativas e não meras simulações, é preciso que o professor tenha clareza de sua função no tocante à formação leitora e escritora de seus alunos. Onde o ato de escrever se torne uma necessidade com uma finalidade específica e não um simples exercício para “aprender a escrever um dia…”

É preciso abrir as portas das salas de aula para poesias, livrinhos de histórias, jornais, revistas, panfletos de sindicatos e outras produções escritas da sociedade. Os jornais e as revistas não devem ser usados para os aprendizes cortarem letrinhas, mas para lerem e entenderem as notícias neles veiculadas.

A língua dever ser sempre trabalhada através de textos e quando a turma apresentar alguma dificuldade lingüística, como a separação de palavras na construção da escrita, deve-se criar uma situação em que os alunos percebam o problema e possam resolvê-lo isoladamente, mas sem descontextualizar nada.

Ler e escrever não são exercícios escolares apenas, mas são, antes de tudo, atividades de linguagem que ultrapassam os limites da escola. A linguagem, ao dar forma ao pensamento e aos conteúdos de nossas experiências, está em todas as situações de vida. Por isso, é impossível pensar o ensino da língua desvinculado das demais áreas do conhecimento.

Compete à escola trabalhar os aspectos específicos envolvidos nos processos de produção e leitura de um texto, de forma prazerosa e significativa, a fim de que o aluno possa dominar as exigências necessárias a toda e qualquer produção de texto, bem como realizar leituras com diferente propósitos.

Para a realização de tão relevante tarefa pedagógica da escola, o professor deverá considerar os seguintes aspectos:

– o aluno traz para a escola a variedade lingüística de seu meio social, devendo ser respeitado. Respeitar significa não tolher a criatividade do aluno. Respeitar, na ação pedagógica, é não negar aquilo que o aluno tem direito, e não negar pressupõe oferecer;

– a sala de aula é, por excelência, o espaço da diversidade social com todos os conflitos advindos destas diferenças. Portanto, deve circular neste espaço o que há no mundo dos homens para que se possa compreender criticamente a sociedade questionando preconceitos e privilégios;

– geralmente, o conhecimento lingüístico que o aluno tem ultrapassa os recursos de escrita de que dispõe. Por esta razão é inevitável cometer erros porque o domínio da ortografia depende da familiaridade e do uso do código escrito. E aprender a escrever resulta da capacidade de perceber, estabelecer relações, construir hipóteses e interpretações, operando com e sobre a realidade até mesmo ao usar a imaginação criativa.

Em termos de leitura e escrita, a escola não deve excluir o conhecimento de mundo que o aluno traz, mas deve oferecer-lhe o conhecimento socialmente elaborado e o domínio do dialeto padrão para que o mesmo possa ter acesso aos bens culturais. O envolver-se na vida cultural da comunidade implica apoderar-se ao poucos do modo da produção escrita.

Assim sendo, o papel da escola consiste em estabelecer o diálogo por escrito, lutando contra os clichês, o nada escrever e o não escrever coisa com coisa.

Está faltando na sala de aula alternativas de trabalho escolar que tornem o escrever um processo significativo de aprendizagem.

Alunos e professores podem encontrar na atividade de escrita-reescrita um espaço social de interlocução e de respeito à opinião do outro; de discussão e apreciação de formas de expressão lingüística e da diversidade de visões de mundo.

Ao trabalhar com o texto escrito, o professor deve pôr em prática o verdadeiro sentido da cidadania. Ler o que o aluno escreveu e respeitar suas idéias é ajudá-lo a interagir com a linguagem. Isso tem um significado mais abrangente que o limitar-se tão somente a correção de erros. Significa, sobretudo, perguntar o que o aluno quis dizer com o que escreveu e quais as suas intenções. Além disso, deve substituir sua preocupação exclusiva com o certo e o errado pela busca da auto-expressão.

Ao professor resta, portanto, a necessidade de mostrar ao aluno que o mundo é vasto e prenhe de alternativas e que a língua escrita é um dos modos de representá-lo, discuti-lo, rejeitá-lo e tudo o mais que a linguagem possibilita. Deve ter em mente que incluir a leitura e a escrita no cotidiano escolar é contribuir para a libertação do homem. É torná-lo mais humano e mais fraterno.

Como diz Smith: “A leitura — como a escrita e todas as outras formas de pensamento — jamais pode ser separada das finalidades, conhecimento anterior e emoções da pessoa engajada na atividade, nem da natureza do texto que está sendo lido.”

 

Folha de Macau, Ano II, nº 21 – janeiro/fevereiro de 1999.