Escrita e leitura na escola: a arte da sedução

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“O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas, e depois como veículo de informação poética, e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética.”

Carlos Drummond de Andrade

 

O poeta, sabiamente, ao solicitar a presença da poesia na escola, o faz levando em consideração dois aspectos fundamentais do texto literário: sua função estética e sua função comunicativa. Assim, privilegia a leitura lúdica e crítica e, em decorrência, abre espaço para a escrita criativa.

Ler e Escrever são atos de libertação. Portanto, se quisermos uma escola cidadã ou, se enquanto educadores, buscamos a construção de uma escola que valorize o homem em sua dimensão plena de ser racional, por conseguinte, crítico, a função do professor ditador/expositor deverá ceder espaço para a função de orientador que sugere e encaminha leituras e requer manifestações orais e escritas de seus alunos.

Não é uma tarefa tão simples como pode parecer num primeiro momento. Mas o professor/educador deve travar uma luta em diversas frentes: reconhecer a necessidade de se transformar num leitor das várias linguagens que compõem o panorama deste final de século; aprofundar seus conhecimentos de língua portuguesa; abrir mão do tempo de exposição; conseguir que os alunos falem e escrevam combatendo a cultura do silêncio, marca registrada da escola; entender que a escrita é muito mais coletiva do que aparenta ser, uma vez que os nossos escritos são resultado daquilo que lemos, que vemos e que aprendemos.

Quando escrevemos, nos ocupamos com a realidade, ou seja, interpretamos e produzimos a realidade. Cada linha de nossa escrita chama à realidade mesmo quando predomina, nestas linhas, a imaginação criativa, porque é da realidade que moldamos a nossa produção textual.

Jorge Luiz Borges já dizia: “Não sabemos a que gênero pertence o mundo; se ao fantástico ou se ao realista.” E Garcia Márquez acrescenta: “Penso que o fantástico é a melhor maneira de descrever o real. A realidade é tão absurda!”

O ato de escrever é uma maneira toda especial de conversarmos com o outro. E escrever, na maioria das vezes, requer o corte do supérfluo ao eliminarmos os ecos, as rimas, os cacófatos, as repetições, os lugares comuns. Daí a importância da reescrita em sala de aula.

Nosso aluno, enquanto aprendiz de escritor, necessita apenas de experiência, observação e imaginação. Mas para isso faz-se mister que a escola ofereça condições para a produção textual e tenha como premissa o pensamento de Chateaubriand: “O escritor original não é aquele que imita ninguém, mas o que ninguém pode imitar.”

Segundo Luiz Carlos Cagliari, a produção textual envolve problemas específicos na estruturação do discurso: de coesão, de argumentação, de escolha das palavras em função do objetivo do texto e de seu destinatário. Cada texto tem uma função peculiar e cada uma delas precisam ser trabalhadas na sala de aula.

O professor deve estimular o aluno a produzir textos espontâneos usando a língua que sabe. Neste momento é importante oportunizar espaços para o aluno perguntar, errar, comparar, corrigir… Sua Produção textual deve ser incentivada desde cedo a fim de desenvolver suas idéias e seu gosto pela escrita e pela leitura.

É dever do professor orientar o aluno quanto à forma do que deverá escrever e a partir de suas produções fazer comentários de tudo que considerar relevante, desde as idéias expostas até a ortografia com o cuidado para que o controle ortográfico não destrua o estímulo que a produção de um texto exerce sobre o aluno.

Ler e escrever devem ser considerados aprendizagens de “base”, contínuas e transversais vez que são indispensáveis a todas as disciplinas do currículo escolar, sendo, portanto consideradas fatores-chave do sucesso ou do fracasso do aluno.

Escrever é sem dúvida alguma a possibilidade de criar um universo discursivo-temático e ler consiste na ampliação deste universo. Portanto, escrever é oferecer-se, é tornar público o privado, ao passo que ler é apropriar-se, é privatizar o público.

Se sonho com uma escola que privilegie a formação de leitores e escritores é porque sou tão somente uma educadora que rega as raízes de tudo o que está crescendo em termos de leitura e escrita na escola; por desejar um novo homem para o novo milênio.

Galileu Galilei já dizia no seu Diálogo sobre os dois máximos sistemas do Mundo: “Mas sobre todas as invenções estupendas, que eminência de mente foi aquela de quem imaginou encontrar modo de comunicar seus próprios pensamentos mais recônditos a qualquer outra pessoa, mesmo que distante por enorme intervalo de lugar e tempo? Falar com aqueles que estão na Índia, falar com aqueles que ainda não nasceram e só nascerão dentro de mil ou dez mil anos? E com que facilidade? Com as várias junções de vinte pequenos caracteres num pedaço de papel, seja este o segredo de todas as admiráveis invenções humanas.”