Leitura: prazer e ideologia

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Esta comunicação consiste numa reflexão acerca da relação leitor e leitura do texto literário proporcionada pelo projeto de pesquisa integrado: O ensino da literatura e a formação do leitor em professores da rede pública do Rio Grande do Norte (CNPq-1996), tendo como enfoque a questão do prazer de ler na dialética com as ideologias que emergem da tessitura da obra.

Minha proposta: o prazer de ler não se restringe à catarse, mas pode advir do jogo instaurado na trama discursiva entre o dito e o não-dito da obra literária.

 

“Ah poder ser tu, sendo eu!

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso!”

 

Nada melhor que estes versos de Fernando Pessoa para evidenciar o desejo e a necessidade do prazer aliado a uma postura crítica.

Utopia? Sonho? Não!!!

É possível ler um texto literário com prazer e simultaneamente perceber as várias ideologias que entretecem o discurso narrativo ou o discurso poético. E esta percepção pode e deve ocorrer de forma lúdica a partir do momento em que as convenções textuais desencadeiam um processo de prazer, conhecimento e reconhecimento da relação entre ficção e realidade.

Marly Amarilha afirma que:“ a leitura de literatura, a leitura de ficção é a que melhor realiza e preenche as condições de leitura lúdica, pois o texto literário é uma proposta de jogo. Na poesia, jogo com as palavras, com as sonoridades, com os sentidos. Na narrativa, jogo de máscaras – jogo de faz-de-conta construído em linguagem verbal”.

Mas o que significa o prazer do texto neste relato?

Barthes quando fala do prazer/fruição, fala sobre a possibilidade de uma dialética do desejo, de uma imprevisão do desfrute, da necessidade do jogo. E acrescenta que o prazer da leitura vem evidentemente de certas rupturas.

Para Barthes a fruição é indizível, interdita, portanto lacaniana, uma vez que só pode ser dita entre as linhas.E é justamente no espaço do interdito, na dialética entre o silêncio e o dizer que habitam as diversas vozes que correspondem às várias ideologias que compõem a textura da obra.

Esta concepção é referendada por Barthes quando diz: “nós acentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa de que o texto se faz, se trabalha, através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nessa textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolvesse ela mesma nas secreções construtivas de sua teia.”

A concepção barthesiana do texto enquanto tecido que se constrói continuamente remete à teoria do efeito estético de Iser. Este coloca que a obra literária se realiza na convergência do texto com o leitor através de uma consciência receptora estimulada pelo próprio texto.

Smith afirma que a leitura jamais pode ser separada das finalidades, conhecimento prévio e emoções do leitor nem da natureza do texto lido.

Ao entender a leitura como uma produção, fica evidente o seu caráter social e o papel das ideologias que percorrem os textos literários na interpretação do leitor e no prazer que se obtém durante o ato de ler.

O leitor é o anti-herói no seu momento de entrega ao prazer de ler e Barthes foi feliz em sua analogia que inverte o mito da Babel onde a confusão das línguas não mais é vista como uma punição, mas como uma possibilidade de fruição mediante a coabitação das linguagens que permite o texto de prazer produzido pelo jogo que estrutura a escrita discursiva.

Schiller já percebia que o incitamento ao jogo está na vida real e que o impulso lúdico deve ter sempre presente o homem em sua própria situação no mundo.

E Iser afirma que o texto ficcional contém elementos do real, sem que se esgote na descrição deste real e diz ainda: o seu complemento fictício não tem o caráter de uma finalidade em si mesma, mas é enquanto fingido a preparação de um imaginário.

A partir desta visão surge a tríade real, fictício e imaginário que permite o enveredar pelas trilhas da linguagem como espaço onde o ideológico se manifesta.

Ainda no que tange à relação criação/fruição, Humberto Eco coloca que a produção artística se organiza a partir de uma estratégia de efeitos comunicativos em função das possíveis atitudes dos fruidores, ou seja, a obra ao concretizar-se de modo formal requer sua realização, interpretação e assimilação por fruidores concretamente compromissados com os diversos interesses do mundo e não apenas por olhos contemplativos.

Ao falar sobre texto, prazer e consumo, Humberto Eco diz que: toda obra propõe pelo menos dois tipos de leitor. O primeiro é a vítima designada pelas próprias estratégias enunciativas, o segundo é o leitor crítico que ri do modo pelo qual foi levado a ser vítima designada. Este segundo leitor diverte-se não com a história contada, mas com o modo como foi contada: sua estrutura, seu conteúdo, o tom do discurso narrativo ou poético, a ideologia do e no texto.

Mas qual o conceito de ideologia adotada neste trabalho?

A ideologia é aqui entendida como a totalidade de concepções culturais de um determinado agrupamento humano num determinado momento de sua evolução histórica e como consciência social de uma época, de uma classe, de um grupo, de um indivíduo vinculado às condições concretas da existência humana em suas relações sociais, sem, entretanto, esquecer a falsificação da realidade pela ideologia como forma de manutenção da ordem social vigente.

E a leitura? O que significa a leitura do texto literário?

A leitura é, neste caso, pensamento que se constrói sobre a informação visual impressa dirigido pela escrita. No entanto, o ato de construir e atribuir sentido a partir do texto impresso é, antes de tudo, pôr em exercício o pensamento do leitor em interação com o texto. Desse modo, o envolvimento emocional do leitor, suas expectativas, suas conjecturas, seu horizonte social fazem da leitura um processo construtivo e criativo.

Partindo destas concepções, abordaremos a relação leitor/leitura do texto literário na pesquisa anteriormente citada numa das sessões em que foi lido o conto “Arranjo em preto e branco”, da Dorothy Parker.

Este conto tem como tema central o preconceito racial. A autora constrói sua narrativa de forma irônica e caricatural. Tendo como motivo uma festa em homenagem a um cantor negro, Dorothy Parker tece a trama do conto a partir de uma personagem branca que em seus “diálogos/monólogos” se apropria da voz narrante, marcada pela ambigüidade de suas falas, numa série de contradições e hipocrisias relacionadas ao racismo contra o negro na sociedade americana.

Em consonância com a proposta do projeto de pesquisa, uma das questões investigadas, nessa sessão, foi o foco narrativo que possibilitou verificar como o leitor se acerca do texto literário mediante determinadas estratégias e procedimentos condicionados por sua teoria de mundo.

Partindo desse pressuposto, percebemos que os sujeitos do experimento, em sua maioria, tinham como estratégia de apropriação do texto, o espaço de identificação com o tema abordado, ou seja, o preconceito racial contra o negro. Assim sendo, a leitura limitou-se à catarse, o que os impediu de manter um certo distanciamento necessário a uma postura crítica e lúdica acerca da realidade discursiva. Suas inferências estavam prenhes de juízos de valor que transitam no imaginário coletivo do contexto cultural no qual estão inseridos como comprovam as seguintes falas, quando da interferência do animador de leitura ao lançar a pergunta provocadora da interação leitor/mediador/texto.

 

A: “Como é que vocês vêem a descrição que a autora faz da personagem principal?”

S1: “É uma perua, né?”

S2: “Eu acho… é uma Porcina… daquelas Porcinas, né?”

S3: “Extravagante, debochada, exibida demais”.

S4: “Branca, né? Com certeza! E preconceituosa… Assim bem extravagante, né?”

S5: “A mulher é uma debochada mesmo.”

 

A questão da identificação afetiva com o texto é tão marcante que os leitores não conseguem perceber o papel da personagem principal na trama do conto e demonstram antipatia em relação à mesma. Não vêem a relevância de suas falas na tessitura do texto que usa e abusa da ironia como recurso estilístico na construção da narrativa que retrata, no ficcional, o caráter racista da sociedade americana.

Ainda no tocante ao processo de identificação mencionado, é interessante observar que um dos leitores deixa explícito, em sua fala, o papel da teoria de mundo na construção da leitura.

 

“S3: “É interessante quando estou lendo sobre um assunto que eu conheço … claro que eu tenho mais vontade de ler, de terminar … de que um assunto que eu não entendo nada … não me reconheço ali naquele assunto.”(p.8)

Neste exemplo, fica evidente que o funcionamento do texto se explica a partir do papel que o destinatário ou o intérprete desempenha quanto à sua compreensão e à sua atualização em consonância com a previsão que o texto faz dessa participação.

Os sujeitos do experimento só tiveram condições de estabelecer associações entre texto e contexto porque o conto lhes forneceu pistas mediantes os índices textuais que possibilitaram tais associações.

Em determinado momento da discussão, um leitor, em seu depoimento, possibilitou a percepção do espaço interativo na leitura como se pode constatar no exemplo a seguir:

 

S2: — “Essa… essa mulher! … sinceramente se eu fosse o anfitrião … Eu … eu … dá licença, eu vou atender … Porque, pelo amor de Deus! … é dessas que pegam no pé, né? Não deixa você respirar … Veja aqui quando o rapaz … o artista … Ela faz uma pergunta; não deixa que ele dê a resposta … Tudo é para aparecer … a necessidade de se mostrar … sobressair né? Mas, olhe aí! Ele é um artista. Ele é negro, mas é um artista.” (p.4)

 

Neste exemplo, o leitor estabelece um diálogo com o texto numa interação que lhe possibilita o fazer projeções, levando-o a se colocar conscientemente na pele do personagem denominado anfitrião como se pode constatar na seguinte fala:

 

S2: —”Talvez ele se sinta até um perdedor, né? …devendo pagar esse favor ao negro. O negro não deve se sentir tão grato a mim … não foi isso? Realmente talvez não seja algum ator querendo pagar a ele algum favor … Eu é que devo ser grato. Imagine a gente fazer uma festa para uma pessoa famosa na minha casa. Imagine, né? Convidar o Gilberto Gil. Pelo amor de Deus!!! … pra mim é uma glória e não pra ele.”(p.4)

 

Apesar do processo de identificação haver marcado as leituras numa postura aparentemente contrária à tônica do texto: o racismo contra os negros, em determinados momentos, algumas falas dos leitores endossam o preconceito racial.

 

S2: “Ele é um artista. Ele é negro, mas é um artista!”

 

Entretanto, a ideologia que o conto nos repassa a partir da sua estruturação no espaço da ambigüidade discursiva e da ironia que percorre toda a trama textual nos leva a perceber que a autora tinha uma proposta anti-racista. Ao construir a personagem que conduz a narrativa de forma caricatural, Dorothy Parker utiliza-se de um recurso estilístico para mascarar a sua proposta.

No processo de cercamento dos significados textuais, os leitores se limitaram a fazer conjecturas acerca da realidade contextual a partir das relações que o conto lhes possibilitou. E essas conjecturas ou inferências estão presas a seus valores éticos conforme ficou evidente nos fragmentos das falas quando da discussão em grupo.

É mister ressaltar que o pressuposto da estética da recepção quanto à teoria de mundo, ao repertório ou enciclopédia no ato da leitura enfatiza a subjetividade do leitor e é essa subjetividade que marca as leituras dessa sessão do conto “Arranjo em preto e branco”, que ocorreu no sexto encontro do experimento.

A ênfase no processo de identificação dos sujeitos com o assunto do texto mostra que o distanciamento da linguagem ficcional não se realizou a contento. Entretanto, a relação texto/leitor se efetivou no momento em que o mesmo tende a se adaptar à intenção autoral, isto é, a ideologia que o texto repassa.

Em suma, o que se pode deduzir, a partir da análise dessa sessão, é que os leitores possuíam pouca familiaridade com a leitura do texto literário, o que os impossibilitou de realizarem uma leitura lúdica permeada de prazer e de senso crítico graças ao domínio do jogo do discurso narrativo que os levaria à percepção das ideologias que compunham a trama do conto em questão.

Face a esta constatação, concluímos que a leitura do texto literário demanda um aprendizado de aprender a aprender a ler literatura, o que deve ser mediado por um leitor mais experiente, ou seja, um leitor proficiente. O papel do mediador é por demais importante para a formação do leitor.

Comunicação – março de 1996