Vozes poéticas: um princípio arquitetônico nas memórias de uma professora de literatura

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Não sei se o convite que me foi feito para ministrar esta aula, intitulada de saudade, numa instituição onde habitam a ciência e o saber é justo. Mas sei, antes de tudo, que me honra, me alegra, me dá prazer. Alegria mais do que honra, pois a honra pode ser imerecida enquanto a alegria nunca o é. Alegria de encontrar aqui lembranças e afetos que foram tecidos em cada momento em que, em sala de aula, intercambiávamos saberes, experiências, sentimentos que nos constituem, docentes e discentes, em educadores em construção. Prazer de ter a consciência do dever cumprido. Como diz Pessoa: “Cumpri contra o Destino o meu dever. / Inutilmente? Não, porque o cumpri”.

Para inicio de conversa gostaria de me insinuar sub-repticiamente no discurso/aula que devo nesta noite pronunciar. Como diz Foucault: “Ao invés de tomar a palavra, gostaria de ser envolvida por ela e levada bem além de todo começo possível, onde vozes me dissessem é preciso continuar; é preciso pronunciar palavras enquanto as há; é preciso dizê-las até que elas me encontrem e me proporcionem o meu encontro com outrem.”

Neruda já dizia: “São as palavras as que cantam… Prosterno-me diante delas” e dando continuidade a sua fala afirmava: “Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras”.

E Drummond poetava:

 

“Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser

escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intacta.

Ei-las sãs e mudas, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-

los.

Tem paciência, se obscuras. Calma, se te

provocam.

Espera que cada um se realize e se consuma

com o seu poder de palavra

e se poder de silêncio.

Chega mais perto e contempla as palavras.

Cada uma tem mil faces secretas sob a face

neutra

e te pergunta, sem interesse pela resposta

pobre ou terrível, que lhe deres:

Trouxeste a chave?

 

Talvez esteja sento pretensiosa quando me proponho a organizar a minha fala em que a tessitura se faz a partir da relação saber/prazer no encontro com a poesia em sala de aula. Porém a escolha deste binômio não é estranha a nenhum de vocês, porque como professora de literatura, elegi como conceito de texto, para nossos encontros/aulas, aquele que o compreende enquanto tecido de significantes no qual o jogo de palavras é o teatro cujo personagem principal e a trama em que se move é a própria língua, cabendo ao leitor o papel de partícipe na construção dos possíveis significados.

Borges já dizia: “Que é um livro se não o abrimos?”

A fala de Borges denota a importância do repertório de leituras a ser trabalhado pela escola através de um professor/mediador, que ao pretender ser um educador, se constitui num leitor desejante capaz de provocar o desejo de ler em seus alunos.

Como explicita Eco: “As leituras falam de leituras e todo leitor lê uma história já lida”.

Essa assertiva se constata em seus versos:

“Que importa minha perdida geração,

esse indefinido espelho,

se teus livros a justificam.

Eu sou os outros. Eu sou todos aqueles

Que teu rigor obstinado resgatou.

Sou os que não conheces e os que salvas.”


Calvino em seu romance/metatexto “Se um

viajante numa noite de inverno”, trata poeticamente

o tema supracitado. Portanto, caros concluintes, não

fiquem perplexos ao abrirem um livro e terem a

sensação de já o haverem lido.

 

Ouçam o que diz Eco: “… a verdadeira explicação é que, entre o momento em que aquele livro chegou até nós e o momento em que o abrimos, outros livros foram lidos nos quais havia algo que aquele primeiro livro dizia e, portanto, ao final aquele livro que não lemos fazia parte de nosso patrimônio mental e talvez tivesse nos influenciado profundamente.”

Para Barthes: “… a literatura é essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder”.

A literatura ao encenar a linguagem engendra o saber. Saber este que reflete incessantemente sobre o saber, não através de um discurso epistemológico, mas, sobretudo mediante um discurso dramático. Neste espaço, as palavras deixam de ser concebidas como meros instrumentos de comunicação para serem tratadas como projeções, explosões, vibrações, sabores que fazem a festa do saber enquanto representação da realidade circundante.

A literatura mantém em exercício, a língua como patrimônio coletivo. As obras literárias são um convite para o prazer da interpretação, já que propõe um discurso com diversos planos de leitura. Entretanto, vale salientar, que a liberdade dessa interpretação consiste numa relação dialética entre as determinâncias e as indeterminâncias do texto.

Não é à toa que Quintana considera:

“Bem-aventurados os pintores escorrendo luz.

Que se expressam em verde

Azul

Ocre

Cinza

Zarcão!

 

Bem-aventurados os músicos …

E os bailarinos

E os mímicos

E os matemáticos…

Cada qual na sua expressão

 

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata

linguagem alheia…

A impura linguagem dos homens!”

 

Foi assim que durante nossos encontros em sala de aula discutimos a literatura e seu espaço no ensino de língua portuguesa, quer através de seminários, quer através de aulas expositivas, as quais, para minha alegria, se transformavam num espaço interdiscursivo. Tanto em uma quanto em outra metodologia o sabor/saber das trocas de experiências advindas das leituras de livros e das leituras de mundo deram o colorido e o ritmo às nossas aulas, tornando-as significativas para a trajetória de minhas memórias de professora do curso de pedagogia dessa universidade.

Para encerrar a minha fala, gostaria de citar Borges quando em seu livro “Esse Ofício do Verso” diz: “A verdade é que não tenho revelações a oferecer. Passei a minha vida lendo, analisando, escrevendo (ou treinando minha mão na escrita) e desfrutando… Sorvendo poesia… Passemos à poesia; passemos à vida. E a vida, tenho certeza, é feita de poesia. A poesia não é alheia – a poesia, como veremos, está logo ali, à espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante.”

Se poesia é vida, poesia é também paixão. Porque a vida só tem sentido se andar de mãos dadas com a paixão. E numa noite como esta; num momento como este nada melhor do que sermos flechadas por Cupido e ouvirmos Para pintar o retrato de um pássaro, poema de Jacques Prévert.

 

para Elsa Henríquez

“Primeiro pintar uma gaiola

com a porta aberta

pintar depois

algo de lindo

algo de simples

algo de belo

algo de útil

para o pássaro

depois dependurar a tela numa árvore

num jardim

num bosque

ou numa floresta

esconder-se atrás da árvore

sem nada dizer

sem se mexer…

Às vezes o pássaro chega logo

mas pode ser também que leve muitos

anos

para se decidir

Não perder a esperança

esperar

esperar se preciso durante anos

a pressa ou a lentidão da chegada do

pássaro

nada tendo a ver

com o sucesso do quadro

Quando o pássaro chegar

se chegar

guardar o mais profundo silencio

esperar que o pássaro entre na gaiola

e quando já estiver lá dentro

fechar lentamente a porta com o pincel

depois

apagar uma a uma todas as grades

tendo o cuidado de não tocar numa única

pena do pássaro

Fazer depois o desenho da árvore

escolhendo o mais belo galho

para o pássaro

pintar também a folhagem verde e a

frescura do vento

 

a poeira do sol

e o barulho dos insetos pelo capim no

calor do verão

e depois esperar que o pássaro queira

cantar

Se o pássaro não cantar

mau sinal

sinal de que o quadro é ruim

mas se cantar bom sinal

sinal de que pode assiná-lo

Então você arranca delicadamente

uma das penas do pássaro

e escreve seu nome num canto do

quadro.”

 

Aula da saudade – UFRN – setembro de 2005.