Uma leitura de: Os atos de fingir ou o que é fictício no texto ficcional de Wolfgang Iser

0

 

“E uma pena localizar a paisagem dos livros. Neles é que ela é verdadeira”.

Miguel Torga

 

Ao iniciar o seu texto, Iser parte da opinião socialmente aceita de que os textos literários são de natureza ficcional e acrescenta que esta classificação ratifica a oposição entre realidade e ficção como parte do repertório elementar de nosso “saber tácito” para em seguida questionar estas assertivas quando interroga:

“Os textos ficcionais serão de fato tão ficcionais e os que assim não se dizem serão de fato isentos de ficções?”.

Este questionamento de Iser nos leva a uma reflexão acerca dos conceitos de “fingir”, do real, da realidade e do imaginário apesar de nas notas, o autor já esclarecer que o termo “imaginário” no texto, está isento das idéias tradicionais sobre ele, mas pretende descobrir como o imaginário funciona, para que, a partir dos efeitos descritíveis, abram-se vias para o imaginário – proposta que no presente ensaio, é trabalhada pela conexão entre o fictício e o imaginário.

Etimologicamente “fingir” significa simular, inventar, fantasiar, fabular, criar.

Segundo Laplatine e Trindade em seu livro O que é imaginário, a realidade consiste no fato de que as pessoas, os objetos sociais e o mundo da natureza existem em si mesmos, independente dos significados que atribuímos a todos eles. E essa existência em si mesma, das coisas e dos homens, faz com que a realidade seja algo dado a ser percebido e interpretado. Enquanto que o real é a interpretação que os homens atribuem à realidade. O real só existe a partir das idéias, dos signos, dos símbolos que são atribuídos à realidade percebida.

As idéias são representações mentais de coisas concretas e abstratas. E as imagens são criadas como parte de ato de pensar, portanto, as imagens não são coisas concretas.

A imagem como ícone difere e se opõe ao símbolo à medida que o símbolo é convencional. Entretanto, tanto a imagem como o símbolo constitui representações.

Nos símbolos encontramos um sistema de valores subjacentes, históricos ou ideais concernentes aos objetos ou instituições. E o imaginário como mobilizador e evocador de imagens, utiliza o simbólico para exprimir-se e existir.

O imaginário é, portanto, a faculdade originária de se pôr ou dar-se sob a forma de apresentação de uma coisa, ou fazer aparecer uma imagem e uma relação que não são dadas diretamente na percepção.

Segundo os autores já mencionados a imagem é formada a partir de um apoio real na percepção, mas que no imaginário o estímulo perceptual é transfigurado e destacado, criando novas relações inexistentes no real. Daí reside a diferença entre imaginário e ideologia, embora ambos façam parte do domínio das representações referidas no processo de abstração, a ideologia está investida por uma concepção de mundo que ao pretender impor à representação um sentido definido, perverte o real material, após o imaginário não sendo a negação total do real, apóia-se neste real para transfigura-lo e desloca-lo, criando novas relações no aparente real.

Ao conceber que os textos ficcionais não são de todo isentos de realidade, Iser propõe a substituição da relação dicotômica ficção/realidade por uma relação tríplice composta apelo tríade real/fictício/imaginário. Como o texto ficcional contém elementos do real sem que se esgote na descrição deste real, então o seu componente fictício não tem o caráter de uma finalidade em si mesma, mas é enquanto fingida a preparação de um imaginário.

A relação opositiva entre ficção e realidade impede de se perceber no texto ficcional não só a realidade social, mas também a de ordem sentimental e emocional, que ao surgirem, no texto ficcional, não se repetem por efeito de si mesmas.

Portanto se o texto ficcional se refere à realidade sem se esgotar nesta referência, logo a repetição é um ato de fingir mediante o qual aparecem finalidades que não pertencem à realidade repetida e se o fingir não pode ser deduzido da realidade repetida, nele então surge um imaginário que se relaciona com a realidade retomada no texto.

Assim sendo, o ato de fingir adquire sua marca exclusiva que é a de provocar a repetição no texto da realidade [objetiva] [vivencial] e através desta atribuir uma configuração ao imaginário, transformando a realidade repetida em signo e o imaginário em efeito do que é assim referido.

Quando a realidade repetida no fingir se transforma em signo, ocorre forçosamente uma transgressão de sua determinação correspondente. O ato de fingir é, assim, uma transgressão de limites. Nisso se expressa sua aliança com o imaginário.

No ato de fingir, o imaginário ganha uma determinação que não lhe é própria e adquire um predicado de realidade, pois a determinação é uma definição mínima do real. O caráter difuso do imaginário é transferido para uma configuração determinada que se impõe no mundo dado como produto de uma transgressão de limites. Assim, no ato de fingir ocorre uma transgressão dos limites entre o imaginário e o real.

Na conversão da realidade vivencial repetida em signo de outra coisa, a transgressão de limites manifesta-se como uma forma de irrealização, Já na conversão do imaginário, que perde seu caráter difuso em favor de uma determinação sucede uma realização.

Em suma, o ato de fingir como a irrealização do real e a realização do imaginário, cria simultaneamente um pressuposto central para saber-se até que ponto as transgressões de limite que provoca representam a condição para a reformulação do mundo formulado possibilita a compreensão de um mundo reformulado e permitem que tal acontecimento seja experimentado.

O texto literário, como produto de um autor, é uma forma determinada de tematização do mundo. E o ato de criar não significa imitar as estruturas de organização previamente encontráveis, mas sim decompô-las. Daí resulta a seleção, necessária a cada texto ficcional, dos sistemas contextuais preexistentes, quer de natureza sócio-cultural, quer de natureza literária.

A seleção é uma transgressão de limites na medida em que os elementos acolhidos pelo texto agora se desvinculam da estruturação semântica ou dos sistemas de que foram tomadas. Entretanto, ressaltam os campos de referência como tais, uma vez que a intervenção seletiva neles operada e a reestruturação de sua forma de organização daí resultante os supõem como campos de referência. E por representarem a forma de organização de nosso mundo sócio-cultural, são tomados como a própria realidade. A seleção retira-os desta identificação e os converte em objetos da percepção.

Os elementos contextuais que o texto integra não são em si fictícios, apenas a seleção é um ato de fingir pelo qual os sistemas, como campos de referência, são entre si delimitados, pois suas fronteiras são transgredidas.

O ato de seleção mais uma vez mostra um limite em cada campo de referência selecionado pelo texto, para outra vez transgredi-lo. É assim o mundo presente no texto e apontado pelo que se ausenta e o que se ausenta pode ser assinalado por esta presença.

Sendo o ato de seleção um ato de fingir, que, como transgressão de limites, possui o caráter de acontecimento, sua função se funda no que é por ele produzido.

Como ato de fingir, a seleção possibilita apreender a intencionalidade de um texto. Pois ela faz com que determinados sistemas de sentido do mundo da vida se convertam em campo de referência do texto e estes, por sua vez, na interpretação do contexto.

A intencionalidade do texto não se manifesta na consciência do autor, mas sim na decomposição dos campos de referência do texto. Como tal, ela é algo que não se encontra no mundo dado correspondente. Tampouco ela é apenas algo imaginário para o uso, que de seu lado, depende das circunstâncias em que deve ocorrer.

A seleção é um ato de fingir uma vez que por ela se assinala os campos de referência com o fim de serem transgredidas. Desse modo. Origina-se a intencionalidade do texto que se caracteriza por não ser uma qualidade dos sistemas de referência em que interveio e por não materializar o imaginário como tal.

A intencionalidade se mostra como figura de transição entre o real e o imaginário, com o estatuto da atualidade. Atualidade é a forma de expressão do acontecimento, e a intencionalidade possui o caráter de acontecimento na medida em que não se limita a designar campos de referência, mas os decompõe para transformar os elementos escolhidos no material de sua auto-apresentação. A atualidade se refere então no processo pelo qual o imaginário opera no espaço do real.

Como ato de fingir, a seleção encontra sua correspondência intratextual na combinação dos elementos textuais que abrange tanto a comunicabilidade do significado verbal, o mundo introduzido no texto, quanto os esquemas responsáveis pela organização dos personagens e suas ações. A combinação é um ato de fingir por possuir a mesma caracterização básica: ser transgressão de limites.

No texto narrativo, em geral, se acentuam os espaços semânticos constituídos a partir de elementos selecionados das realidades extratextuais, que se revelam pela apresentação esquemática das personagens do romance (caracteres positivos e negativos). Aqui também encontramos uma relação entre forma e fundo, caracterizada pela transgressão dos espaços semânticos, geralmente pelo herói. Resulta daí que o ponto de relevância de tais campos de referência é ora a figura, ora o fundo, originando-se assim uma rede de relações inexistentes no simples esquema do texto.

Como ato de fingir, a combinação desde muito tem sido compreendida como marca característica da poesia. Bacon descrevia a poesia como um processo combinatório “que pode à vontade estabelecer uniões e divórcios ilegais de coisas (…) comumente ultrapassa a medida da natureza, unindo a bel prazer coisas que na natureza nunca viriam juntas e introduzindo outras que na natureza nunca aconteceriam.”

Como ato de fingir, a combinação cria relacionamentos intra-textuais. Como o relacionamento é um produto do fingir, ele se revela como intencionalidade.