A discursividade enquanto mediadora na construção dos sentidos compartilhados na leitura de literatura[*]

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“Era uma vez uma vez.

Um fiozinho à toa. Fiapo de voz.

……………………………………………

E foi-se o tecido cobrindo,

de cor em cor enfeitado.

 

Foi-se a história construindo,

mãos em risco de bordado.”

 

Ana Maria Machado

 

Quando pretensiosamente pensamos construir uma análise de como se processaram as sessões de leitura do texto/conto “Mãe com medo de lagartixa”, de Ana Maria Machado, decidimos organizar nosso estudo em três momentos que apesar de aparentemente estanques, mantêm uma articulação peculiar no que concerne a nossa proposta de leitura. Num primeiro momento, apresentaremos a autora Ana Maria Machado e sua produção de livros de literatura infantil. Num segundo momento, falaremos do livro “Alguns medos e seus segredos”, desde seu projeto gráfico às questões de gênero, cuja trajetória vai da poética aristotélica à ruptura com a poética da modernidade, considerando a especificidade desse gênero na literatura infantil. E, finalmente, o momento da análise das sessões que enfocará a questão da mediação, da polifonia e do discursos monológico.

Dada a abrangência da proposta, surge-nos um problema: que caminhos percorrer para manter essa articulação? Qual o aporte teórico que respaldará o entretecer dessa trama de forma a não se transformar em drama, mas em teia, tecido, texto. Reportando-nos à etimologia do termo teoria, cuja raiz já contem uma imagem, uma vez que o verbo grego theorein significa ver, olhar, mirar, contemplar, encontramos na semiótica pierciana e bakhtiniana o suporte para nosso trabalho. Portanto, decidimos ver, olhar, contemplar e mirar a relação autora/livro/leitores mediada pela voz e postura das professoras/sujeitos do experimento em pauta a partir da concepção triádica de signo enquanto representação num entrecruzar com a concepção de signo como propriedade da linguagem na diversidade de suas manifestações tendo como referências o conceito de dialogismo. Onde se pretende observar o fato de que as palavras de um falante, inevitavelmente, são perpassadas pelas palavras de outrem, bem como reconhecer que a elaboração de um discurso se constrói a partir de outros discursos que se tecem explícita ou implicitamente no interior do novo texto, quer seja escrito ou falado. Assim sendo no dialogismo, o eu e o outro, inseparavelmente ligados, têm como elemento articulador, a linguagem. Desse modo, o discurso verbal passa a ser entendido como fenômeno de comunicação cultural que não pode ser compreendido independentemente da situação social que o engendra. O discurso verbal é uma forma de comunicação que ao participar do fluxo social se envolve em processo de interação. O enunciado concreto vive e morre no processo de interação socialentre os participantes de determinada situação comunicativa.

A semiótica, portanto, é o construto teórico a partir do qual estruturaremos nosso trabalho. Assim, tanto o domínio das imagens como representações visuais quanto o domínio imaterial das imagens mentais, também entendidas como representações, estão intimamente ligados em sua gênese.

O termo representação caracteriza uma função sígnica ou um processo de utilização sígnica. Pierce define representar como estar para, quer dizer, algo está numa relação tal com um outro que, para certos propósitos, ele é tratado por uma mente como

se fosse aquele outro.

Apresentando Ana Maria Machado

Às vezes, escrever uma redação para a escola é meio difícil, né? Escrever um livro, então, deve ser bem complicado. Agora imagina só escrever mais de 100 livros! Pois a Ana Maria Machado fez isso brincando: é que essa escritora carioca simplesmente adora escrever, seja para criança, seja para gente grande.

E como tudo que a gente faz gostando muito sempre fica bom, os livros de Ana Maria ficaram tão legais que ela ganhou um montão de prêmios por causa deles. O engraçado é que, antes de virar escritora, a Ana Maria gostava mesmo era de … pintura! Ela até estudou para ser pintora no Museu de Arte Moderno do Rio de Janeiro e o Moma de Nova York, e participou de um bocado de exposições! Mas o amor pela literatura falou mais alto e, em 1965, quando tinha 24 anos(faça as contas: ela nasceu em 1941) a Ana Maria começou a escrever historia para gente grande e pequena. Um dos livro mais famosos de Ana Maria chama “Bisa Bia, Bisa Bel”. Ele foi escrito em 1982 e conta a história de uma menina que encontra uma fotografia bem antiga da bisavó e começa a conversar com ela! As duas ficam bem amigas, e a bisavó ensina à menina um monte de coisas sobre o tempo em que ela viveu.

Além desse, ela também escreveu “Raul da Ferrugem Azul”(1979), “História Meio ao Contrário”(1979), “Menina Bonita do Laço de Fita”(1986), “O Gato Massamê e Aquilo que Ele Vê”(1994), uma coleção de dezessete livros chamada “Mico Maneco”, (1983-1988) e mais uma porção de livros! E, apesar de ter ganhado um monte de prêmios, o que deixa a Ana Maria feliz de verdade é saber que as crianças adoram o que ela escreve. Afinal, seus livros já foram publicados em 16 países, e ela tem mais de 6 milhões de leitores!

A escritora Ana Maria Machado diz que seus livros não procuram dar respostas, mas sim levantar perguntas que sejam levadas pela vida afora. Ana Maria se define como uma “profissional da palavra”. Considerada uma das mais importantes escritoras da atualidade, ela já publicou quase 100 títulos com obras para jovens, adultos e crianças, além de ter recebido diversos prêmios, dentre eles o Hans Christian Andersen, a mais importante premiação internacional na área de literatura infanto-juvenil.

Tanto nos livros para crianças quanto para jovens, Ana Maria mantém acesa a chama dos antigos contadores de histórias: em uma linguagem leve e fluente, a trama segue o seu rumo e envolve o leitor nos textos leves, cheios de humor e poesia. De acordo com ela, escrever é o seu jeito de entrar na conversa. A escritora não só navega pelo mundo infantil como também fala de igual para igual com as crianças. Trata os jovens da mesma forma: mergulha em seu universo e aborda questões complicadas como a descoberta do amor e da sexualidade.

Desde criança, Ana Maria Machado mora nos livros. Monteiro Lobato foi um dos autores que fez parte da infância: “os livros eram arrebatadores e o que mais me fascinava era a liberdade dos personagens, prontos para sair pelo mundo”, conta. Além de Lobato, muitos outros estavam entre os preferidos: Mark Twain, narrando as peripécias de Tom Sawyer e Stevenson, povoando de mistério e suspense as aventuras do jovem Jim em busca de um tesouro pirata. “De repente, me mudei do Sítio do pica-pau amarelo para as margens do Mississipi”, lembra.

Mais tarde vieram os romances de Charles Dickens e Alexandre Dumas e a certeza de que a leitura é importante em qualquer idade. “A narrativa dá sentido à existência e os livros formam um patrimônio da humanidade, a que todos têm direito”. E devem reivindicar.

A escritora Ana Maria Machado ganhou em 2001, o mais importante prêmio literário nacional – o Machado de Assis, outorgado pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra como romancista, ensaísta e autora de livros infanto-juvenis. Um ano antes, recebera do IBBY (International Board on Books for the Youth) a medalha Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantil, por ser o mais alto prêmio internacional do gênero, conferido a cada dois anos a um escritor, pelo conjunto da obra.

Lendo o livro: “Alguns medos e seus segredos”

Ao lermos o livro “Alguns medos e seus segredos”, buscamos em seu projeto gráfico o diálogo que se estabelece entre o verbal (a historia propriamente dita) e as imagens (ilustrações contidas tanto na capa quanto no interior do livro).

A simbologia tanto perpassa o título do livro quanto a ilustração. E a imagem não se restringe às coisas representadas, ela é aquilo que a evoca. Em nossa leitura o desenho das crianças é por demais sugestivo face ao medo simbolicamente representado por uma figura marcada pela imprecisão do objeto, o que é referendado pelas várias nuances de cores, indicadores do caráter fantástico ou fantasioso do signo medo, numa relação íntima com a proposta de desmistificação do mesmo contida nos textos.

No conto “Mãe com medo de lagartixa”, o espaço transgressor pode ser percebido quando na folha de rosto, além do título, no lado direito quase ao final da página está escrito: “Era uma vez uma mãe … “, frase esta provocadoramente ambígua e simbólica. A narrativa é sedutora, compensatória, se levarmos em consideração o espaço de interdição do desejo exercido pelo adulto em relação à criança. É tanto que ao analisarmos as sessões de leitura desse texto, constatamos o envolvimento dos alunos com a história, apesar da atitude das professoras, enquanto mediadoras, ter deixado a desejar.

Lendo as sessões de leitura e literatura Ao analisarmos a 4ª Sessão na turma “A”, cuja professora participou dos encontros de estudos com os pesquisadores da Nepelc, recorremos aos conceitos de dialogismo, polifonia e discurso monológico, que, segundo Bakhtin, rege a cultura ideológica dos tempos modernos e a ele se opõe o dialogismo, característica essencial da linguagem e, portanto, a própria condição do sentido do discurso. Como princípio constitutivo da linguagem e condição de sentido do discurso, o dialogismo decorre da interação verbal que se estabelece entre o enunciador e o enunciatário no espaço do texto. Nesse espaço, o sujeito perde o papel de centro e é substituído por diversas vozes sociais, que o tornam um sujeito histórico e ideológico. Descentrado, o sujeito divide-se, cinde-se e torna-se um efeito de linguagem.

A leitura da transcrição, deixa evidente que a professora ao exercer a função de mediadora do ato de ler, não se desvincula de uma postura tradicional do papel do professor, demonstra insegurança e não consegue manter o processo de interação discursiva necessário a construção de sentidos a serem compartilhados pela classe durante os momentos de pré e pós-leitura.

Inicia a sessão fazendo uso do discurso monológico quando recupera o mito de mãe marcado por signos positivos tais como: mãe compreensiva, mãe extraordinária, num processo de identificação com sua mãe, quando diz: “como a minha mãe no tempo que eu era pequena”. Essa fala da professora prejudica o processo de hipotetização enquanto estratégia leitora a ser utilizado pelas crianças. Desse modo, induz as falas dos alunos, cujos marcadores textuais são carinho, amor, bondade, sinceridade, responsabilidade, caráter, proteção.

Durante a pré-leitura, a professora não atua como mediadora, não suscita a polifonia no processo de interação verbal que procura instaurar. Não costura as falas. Não expande informações. Não ouve os alunos, principalmente José Carlos e Antony. O primeiro aluno citado diz: “Eu acho que ela tem medo de lagartixa; eu já vi.”, e insiste criando um neologismo: “garaticha”. Enfim, não fornece estímulo positivo a quem fala ou quer falar.

O momento de pós-leitura inicia-se com um impasse entre professora e alunos, quando esses solicitam-lhe contar outra história. Isso demonstra o poder de encantamento da narrativa. Apesar da professora não conseguir assumir a função de mediadora, a interlocução dos alunos permite vislumbrar o caráter sedutor da leitura feita em voz alta.

A insegurança da professora impede que se instaure, na sala de aula, um processo discursivo polifônico. Além de fazer perguntas óbvias, demonstra ansiedade em retornar ao plano de aula, ou mais, especificamente, as questões do roteiro elaboradas para desencadear um processo de identificação, inferências e relação texto/contexto.

A sessão termina com as falas dos alunos que ao denunciarem a falta de funcionalidade da biblioteca e sala de leitura, sugerem à professora alternativas para ficarem com o livro na classe.

Ao analisarmos a 4ª sessão da turma B, denominada como de controle, pelo fato da professora não haver participado das sessões de estudo com o grupo de pesquisadores, percebemos que apesar de não ter acontecido o momento de pré-leitura, a pergunta iniciadora da sessão sugere que a mesma pode ter tido acesso ao planejamento das colegas. Tal qual a primeira professora, a da turma B não trança as falas, possui voz monológica.

 

[*] texto escrito em parceria com Maria do Socorro Seleide

 

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