Competências da Escola: formar leitores capazes de ler e compreender criticamente o que lêem[*]

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Não sei se o convite que me foi feito para falar sobre o tema em pauta é justo. Mas sei que muito me honra, me alegra, me dá prazer. Alegria advinda da possibilidade de intercambiar saberes e experiências com outros professores. Prazer de ter a consciência de que todo professor é um educador em construção.

Para início de conversa gostaria de me reportar a Foucault quando diz: “Ao invés de tomar a palavra, gostaria de ser envolvido por ela e levando bem além de todo começo possível, onde vozes me dissessem é preciso continuar; é preciso pronunciar palavras enquanto as há; dizê-las até que elas me encontrem e me proporcionem o meu encontro com outrem.”

Esta fala de Foucault nos remete à concepção da linguagem enquanto interação verbal e nos leva ao reconhecimento do dialogismo como essência primaria de todo e qualquer discurso.

Paulo Freire já afirmava que “ensinar exige respeito aos saberes do educando.”

É de competência da escola ser o lugar da criticidade e da expansão do visível que se vê para o visível que se desvela já que ler consiste num trânsito constante entre as determinâncias e as indeterminâncias textuais. Só assim a escola poderá possibilitar ao aluno a travessia da banalidade [dizer o que todo mundo vê e sabe] para a singularidade [dizer e ver o que só os leitores iniciados são capazes de ver] [Rolland Barthes].

Segundo Ítalo Calvino, “…diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento.”

Estes elementos propiciam o avanço cognitivo mediante o binômio palavras/imagens e oportunizam a passagem da experiência sensível para o conceitual.

Para Smith o conhecimento das convenções da linguagem escrita é essencial para leitores e escritores, uma vez que as convenções são a base para a compreensão e comunicação. Smith ainda ressalta o fato de que a leitura é uma atividade construtiva e criativa, tendo quatro características distintas e fundamentais: é objetiva, seletiva, antecipatória e baseada na compreensão, temas sobre os quais o leitor deve claramente exercer o controle. A compreensão é a base de todo o processo de leitura e é na interação do que já se sabe para o que se busca saber que se desenvolve o sentido e a compreensão do ato de ler, tornando-o significativo e possibilitando ao leitor desfrutar a natureza lúdica do texto, bem como propicia o desenvolvimento de um olhar crítico acerca do lido.

A leitura lúdica se afasta dos parâmetros da escola ao apresentar-se desescolarizada, ou seja, sem mecanismos de cobrança de tarefas, mas ao contrário do que se possa pensar, requer um acompanhamento sistemático dos alunos pelo professor/mediador na interlocução com os textos.

A opção metodológica pela interação leitor/mediador/texto/leitores entende que a elaboração cognitiva se constrói na relação com o outro.

O professor-mediador do ato de ler além de ser um leitor deve também exercer a função de animador ancorado numa atitude “scaffolding” tendo como pressupostos metodológicos as seguintes orientações:

• estimular a construção de hipóteses;

• promover diálogos;

• manifestar estímulos positivos;

• clarificar e expandir informações;

• responder a questões quando solicitado;

• promover o relacionamento de conceitos às

experiências de vida;

• promover o relacionamento vida/texto e texto/

vida.

 

A metodologia do “scaffolding” requer a sistematização do ato de ler em três momentos: a pré-leitura, durante a leitura e pós-leitura.

Na pré-leitura inclui:

• motivação

• ativação do conhecimento prévio;

• construção do conhecimento específico doa

texto;

• relação da leitura com a vida dos estudantes;

• levantamento de hipóteses;

• estimular as estratégias de compreensão

leitora.

A pós-leitura é o momento dos questionamentos e discussões. É o momento das trocas, da interação verbal entres os pares mediados pelo professor.

Formar leitores desejantes é antes de tudo promover a fruição do imaginário. Para Jauss, a leitura como experiência estética é tanto libertação de alguma coisa quanto libertação para alguma coisa. Se por um lado, ela desprende o leitor das dificuldades e imposições da vida real, por outro, renova sua percepção de mundo. Para Vincent Jouve: “Ler, pois, é uma viagem, uma entrada insólita em outra dimensão que, na maioria das vezes enriquece a experiência: o leitor que, num primeiro tempo, deixa a realidade para o universo fictício, num segundo tempo volta ao real, nutrido de ficção.”

A literatura abarca narrativas diversas mas com certeza privilegia as que convocam aos afetos, a sensibilidade, além da lógica e da inteligência e, por isso, é a melhor opção para iniciar as crianças e jovens na aventura de ler e conhecer pela experiência de sentir-se diante do relato, tomando partido, fazendo escolha, constituindo-se sujeitos. Portanto, passear pelos bosques da ficção ou pelas cidades invisíveis é uma experiência que mostra nitidamente que o mundo da natureza dada só pode ser entrevisto pela ótica da cultura.

O processo catártico desencadeado pela literatura mobiliza os afetos, a percepção e a razão convocadas a responder as impressões deixadas pelo discurso, cujo compromisso é o de co-mover o leitor, o de desautomatizar o seu olhar e o de descobrir-se um sujeito particular. Não é uma tarefa fácil para o professor, mas uma vez desencadeado é prazeroso e contínuo.

Ler é portanto, solidarizar-se pela reflexão , pelo diálogo com o outro, a quem altera e que o altera.

As leituras solidárias ou partilhadas se dão sem pedagogismos, mas com uma pedagogia da cumplicidade que aproxima vozes, imaginárias, apreensões, dúvidas, perguntas, emoções . É importante ressaltar que a fluidez da leitura nos ensina a lidar com o ilimitado. A vida da leitura pertence ao leitor.

 

[*] Palestra proferida para os professores do Colégio Contemporâneo em Natal [RN] em janeiro de 2007.

 

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