A Ilha Submersa

Ilha Submersa [A Dissipação da Aurora, p. 66/67]

Fagundes de Menezes [*]

Foto: Getulio Moura, 2010, Ilha Paraíso – Barra da Ilha, Arq: Getulio Moura

Quando o bote transpunha a barra do rio Açu, começava a agitar-se, impulsionado pelas ondas. Íamos para uma pescaria no chamado Lamarão, onde os navios ancoravam, longe do antigo porto que até a primeira década deste século abrigava embarcações de todas as bandeiras, de escunas escandinavas a galeras inglesas.

Meu pai preparava o material de pesca, mandava buscar João Dias (que seria o timoneiro do barco movido a motor de popa, um motor Penta, barulhento e explosivo) e João Nunes, o municiador das iscas, sempre camarão fresquinho. João Dias e João Nunes, dois resignados subnutridos, dois subempregados, incapazes de um gesto ou de uma palavra de revolta e inconformismo, ambos precocemente envelhecidos.

Logo ao sair da barra, as gaivotas e garças multiplicavam-se. Raros bicos-tortos sobrevoavam a pequena embarcação, enquanto bandos de andorinhas eram uma escura mancha se deslocando a grande altura.

Foto: Getulio Moura, 2008, Delta do rio Açu alagado, Arq: Getulio Moura

As salinas Raminho e Barro Preto, de onde, no São João, lá em casa se recebia muito milho verde, afora os jerimuns e melancias que durante boa parte do ano comíamos, as salinas ficavam para trás – e o mar sem limites sugeria ao menino a aventura de grandes viagens, o desejo de atingir portos longínquos, praias desconhecidas, terras do outro lado do Atlântico.

Éramos cinco no barco: meu pai, meu irmão Joaquim, João Dias, João Nunes e eu. Às vezes o vento, um nordeste camarada, servia para amenizar o calor do sol; outras vezes começávamos a ser fustigados por um leste incômodo e agressivo, quase sempre interrompendo a pescaria, pois as águas eriçadas afastavam os peixes. E se esgotava em todos nós a paciência de ficar segurando demoradamente a linha, com isca e anzol mergulhados no mar.

Foto: Getulio Moura, 2008, barcos de pesca, Arq: Getulio Moura

Nessas pescarias, não era muito raro surgirem histórias ligadas à vida marítima e aos primeiros habitantes de Macau – os remanescentes da ilha de Manoel Gonçalves. Fosse quando me encontrava no barco de cujo nome não me lembro, ou quando ouvia falar sobre a fundação de Macau (sobretudo o que me contava Zé da Encarnação, marceneiro mais do que artesão, um artista na construção de embarcações), a ilha de Manoel Gonçalves era sempre o assunto preferido, exercendo sobre mim um fascínio que ainda hoje perdura. Fascínio alimentado principalmente pela narrativa dos últimos momentos da ilha, com a lenda a respeito do cruzeiro de madeira, que atualmente se encontra na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Macau. […]

[*]Fagundes de Menezes é macauense e autor de A Dissipação da Aurora dentre outras obras.

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