Companheiros

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Clarissa Guerra, 2010, Ze de Damiana, arq bau de Macau

Quando no início de 2009 Benito me telefonou dizendo que um personagem do meu romance Ninguém para a Coréia estava vivo, forte e lúcido, eu quase não acreditei. Imaginava-os todos mortos, afinal eles tinham de 30 a 40 anos em 1950.

A história de como surgiu o romance é interessante. Não sei precisar quando foi, mas creio que em 1998. Benito passou na minha casa na Padre João Clemente, a caminho da universidade, com um maço de cópias xerografadas dizendo: – Pega aqui seu “carai” e vê se faz alguma coisa com isso! E nem esperou resposta. Era o seu jeito de ser amigo. E Benito sempre foi um amigo!

Mais tarde, quando fui ler os documentos, qual não foi a surpresa de ver que se referiam à luta dos comunistas em Macau, e mais, à inserção no internacionalismo proletário que Marx destacou no Manifesto Comunista: Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!

Os documentos escritos à mão, em bela caligrafia, tratava-se de dois autos de prisão da década de 50 contra trabalhadores, possivelmente membros do Partido Comunista Brasileiro. O primeiro de 26 de agosto de 1950 justificava a prisão em flagrante de “indivíduos … estavam na vila de Pendências, deste município, distribuindo a população ali uns boletins de caracter extremista, isto é, boletins de propaganda comunista internacional …que conteem … o seguinte: Declaramo-nos de acordo com o Apelo de Estocolmo – Exigimos a proibição das armas atomicas, arma de terror e de extermínio maciço de populações…” O outro documento de 28 de janeiro de 1951 era um inquérito policial contra vários trabalhadores que haviam participado em Macau de um protesto “introduzindo cartazes de propaganda comunista com os … dizeres liberdade sindical, queremos terras para os camponeses, … ninguém para a Coréia, … queremos água …”.

Clarissa Guerra, 2010, Ze de Damiana e Benito Barros, arq bau de Macau

A minha surpresa ao ver os documentos era porque tentara sem sucesso recolher algum fato de presença comunista em Macau nos idos dos 40/50 e não encontrara nada. Benito sabia o quanto aqueles documentos eram importantes para mim. E então ao pesquisar para a sua bela obra Macauísmos – Lugares e Falares Macauenses encontrou os documentos e lembrou-se de mim. Isso é amizade.

Comecei a esboçar o romance naquele mesmo ano, depois fui morar em Natal sempre com o pensamento de concluí-lo até 2005. Não consegui, faltava muita coisa. Só mesmo depois quando empreendi uma pesquisa nos jornais do Rio Grande do Norte, conservados heroicamente pelo Instituto Histórico, foi que consegui concluí-lo, era 2007. A publicação só veio em 2008, ainda assim, em pequena tiragem.

E quem era o personagem? Trata-se de José de Damiana, ou José Boca de Tanque, que foi preso em 1951 num ato de protesto em Macau, “empunhando um cartaz onde se lia Ninguém para a Coréia”, o que inseria Macau na luta do internacionalismo proletário. Naquele momento os EUA, já um império, exigia que o Brasil mandasse tropas para ajudá-los a destruir a Coréia. E foi também graças aos comunistas do mundo inteiro e também os de Macau que os jovens brasileiros não foram morrer e matar na Coréia.

Clarissa Guerra, 2010, de camisa branca Elson Cunha, de pe professor Jailson, de chapeu Claudio Guerra, Ze de Damiana e Benito Barros, arq bau de Macau

No início de 2010, Benito me liga novamente e me põe em contato com o professor Jailson que me convida para participar da entrevista com José de Damiana. Ocorre que Benito havia sugerido ao professor Jailson, aluno de especialização em História da UNP, que fizesse a monografia sobre a luta de José de Damiana. E assim, em 10 de janeiro de 2010, quase 60 anos depois do episódio que me instigou a escrever o romance, tendo por paisagem a placidez da maré rio de Macau desde o Restaurante Maré Mansa e contando com o apoio e simpatia de Sebastião e Fátima, conversamos com José de Damiana. Foi também a última vez que conversei com Benito pessoalmente. E a vida nos prega peças. Mal sabia que um ano depois iria a Macau para o seu enterro. Fui, e lá no Lions Clube, onde Benito estava sendo velado, me encontrei novamente com José de Damiana, agora com 94 anos e também chorando a morte do companheiro Benito Barros.

De Claudio Guerra para o baú de Macau, em agosto de 2011.

Veja aqui a Entrevista – primeira parte

O restante da entrevista pode ser vista em Memórias da luta dos trabalhadores.

 

 

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