Alma de Pássaro

0

ALMA DE PÁSSARO

José Saddock [*]

 

Orelhas no tronco – Foto Clarissa Guerra, 2011

Desisto. Fecho a janela. Desço. Lá embaixo estava úmido. As coisas exalavam o mofo produzido pela vegetação criptogâmica que se desenvolve sobre objetos úmidos. O palhaço de feltro ia aos poucos ficando sisudo, perdendo as cores e a graça. Consigo salvar a imagem de São Francisco; mais pela arte que pela fé, não aprendi a confiar nos santos. Penso que eles escondem alguma coisa, alguma verdade que nós, pobres mortais, não podemos saber. O que será? Se não fosse pela santidade, arriscaria dizer que estariam escondendo uma bela mulher ou uma maleta cheia de dinheiro ou um bom uísque ou uma arma calibre 40… não sei, é melhor não ariscar…

De volta à sala, percebo o silêncio que envolvia o recinto e tento em vão ouvi-lo. Distraído, esbarro na mesa, um copo cai e se estilhaça; o silêncio, também. Passo então a ouvi-lo em mil pedaços ecoando pela sala inteira. Apanho os cacos. O silêncio continua a ecoar livre como um pássaro que se prende ao espaço. Levo de volta Pessoa à estante e liberto As Flores do Mal. O espaço finalmente encolhe; e o silêncio, espremido, resolve sair pela janela…

Fico parado diante do espelho, vendo-me passar e tornar a passar sem me dar a menor atenção. De sobressalto a campainha acorda assustada. Olho pela janela era o carteiro. Desço novamente. Apanho a correspondência e subo. Ainda na escada percebo um esvoaçar de asas. Um pássaro inadvertidamente entrara pela janela. A casa se transformara em um alçapão. Que fiz eu! A decisão de deixar a janela aberta causou sua prisão. Tivesse escolhido fechar a janela, o que teria ocorrido? Aquela escolha aparentemente tão livre parecia-me agora algo inevitável. Como ser livre se não tinha a experiência daquilo que não vivenciei, que não escolhi? Percebi que o fato havia ocorrido apenas para mim. Não como causa, mas como encadeamento de uma escolha anterior.

Continuei subindo a escada. A cada passo me sentia um recém-nascido, um novo ser, como se tudo tivesse uma correlação indissolúvel, inevitável, e ao mesmo tempo transformadora; unindo o passado ao presente, tornando-me, a cada degrau, um estranho de mim mesmo; indo de um tempo sem memória a um sem previsão. Vi-me em minha própria origem e compreendi que fui feito para o milagre e não para a ação. Agir livremente era impossível! E a liberdade que tanto desejava diluía-se nas possibilidades de uma vida futura. Refleti que a primeira vontade não estava em mim e que, portanto, não era o meu princípio e que não sendo o meu princípio, “eu não era o princípio de nada”. Agir livre era agir por conta própria; e, perdendo as minhas asas, senti-me perdido na ilusão de não ser dono de minhas escolhas, mas mero observador.

Precisava, no entanto, acreditar na liberdade sem mais hesitar, sem buscar outras razões, apenas acreditar que era indispensável a minha vida. Sem liberdade não poderia sentir-me vivo; e, mais do que isso, não teria como entrelaçar origem e escolha… Lembrei-me de uma poesia…

 

Alma de pássaro,

Pássaro liberta.

 

Acolhe o espaço,

A verdade das formas,

E a leveza que revela o ar.

 

Eleva o canto

Aos espaços rítmicos

Como se a ti pudesse elevar.

 

Guarda a fuga,

Ainda pressentida,

Quão inevitável desejo de voar.

 

E se a mão, por fim, se fez sentença:

Liberta a tua alma,

Acolhe a tua crença!

 

Fernando Pessoa – Pintura de João Beja

Debatia-me contra as grades de minha própria prisão e sentia que o ato original que me tinha feito um ser e um modo de ser estava agora adormecido em algum lugar… Subitamente impus a mim mesmo a negação de tudo, e como um pássaro, voei.

 

 

[*] José Saddock de Albuquerque é poeta, macauense e coloborador deste sítio.

 

 

Deixe uma resposta