Avoador, voador, voadô: Diogo Lopes

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Foto JR Guerra, 2010, pescadores em Diogo Lopes, Arq o baú de Macau

Maria Madalena foi tratadeira do voador e outros peixes. Neta e filha de pescadores. O filhos também foram para a pesca. Em Diogo Lopes, desde sempre, quase todo mundo vai para a pesca. Desde menina ela labutava com a peixaria. Labutou até os meados dos 80. Ela nasceu em 52. É diogolopista da gema. Filha de Cora e Paiaia [Lauro Martins], já falecidos e que foram pessoas dignas e trabalhadoras.

Eram dois ou três dias no mar e depois, da praia um gritava:

– Lá vem o bote do voadô! O quartel do bote vinha cheio de voadô, voador, avoador, como queiram, é a língua do povo! Uma parte vinha fresco e outra parte aberta. No barco enchiam os balaios de cipó e ia para o rancho. O rancho tinha que ser na beira da praia, que em Diogo Lopes é um braço de mar. O peixe, contado no barco e posto no balaio. O voadô é por milheiro. Tem que arrancar tripas e guelras com o trinchete, uma faca pequena. É trabalho para o pescador, no barco quando dá tempo e do rancheiro, assim que receber o peixe. Pega o peixe, emborca, passa o trinchete na barriga, da cabeça para o rabo, duma só vez. Depois o trabalho é com as tratadeiras que vão desguelrrar. Enfiam o indicador nas guelras e vão arrancando tudo, guelrras e tripas. Depois é com o rancheiro que salga. É guardado. No dia seguinte os lavadores levam os balaios para a maré e lavam o peixe. Aí, é de novo com as tratadeiras.

Getulio Moura, 2007, varal de avoadores em Diogo Lopes

Vão estender no varal para ficar bem sequinho.

Normalmente se tratava de 4 a 6 milheiros de peixes. Tinha dia que amanhecia tratando voadô. Melhor era tratar o peixe fresco. O que já vinha salgado era mais difícil, porque endurecia, diz Maria Madalena.

O varal é de varas, também das de mangue. Finca no chão o pau com forquilha que vai receber as varas mais compridas, entrançadas. O varal deve ter a altura de 1 metro mais ou menos e a largura suficiente para ser alcançada pelo braço da tratadeira. O comprimento é variável. Os voadores são estendidos no varal para secar no sol. Algumas vezes, diz Maria Madalena, o trabalho ia das 3 horas da madrugada até as 10 horas da manhã. Os voadores ficavam abertos no sol. Se tivesse sol ficavam até as 4 da tarde. Se não tivesse sol ou fizesse chuva, recolhiam os peixes do varal. No dia seguinte, estendia novamente. Se passasse vários dias sem sol os voadores ficavam salgados nos balaios. Quando secavam, iam tirando o voador do varal, pegando de dois em dois, quebrando e colocando no cesto. Depois voltava para o rancho. O quebrar é pegá-los, dois juntos e dobrá-los de um lado e outro para ele esticar e ficar melhor para empilhar. Quebrar é isto. O voo final do avoador era nas feiras dos sertões: dali para as panelas dos sertanejos. E para o pescador ficava só o trabalho.

Da equipe do baú de Macau baseado nas recordações de Maria Madalena.

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