É quase tudo igual: Areia Branca e Macau.

AD , 1940?1950, Barcaça no trapiche para carregar de sal. Ad.

Até nas santidades Areia Branca e Macau combinam. Vejam só: a maior festa sacra é da Nossa Senhora dos Navegantes, com procissão marítima e tudo mais, mas vá perguntar da santa padroeira: não é ela não! É Nossa Senhora da Conceição. Mas no fim é tudo Nossa Senhora!    Mas não é disso não que eu quero falar! Quero falar da Macau que eu não alcancei, da Macau das barcaças de madeira que só conheço das narrativas dos meus amigos macauenses. E agora eu posso falar dessa Macau e vou falar pela pena segura de Chico de Neco Carteiro, que narra as coisas de Areia Branca como narrasse as coisas de Macau.

De Claudio Guerra para o baú de Macau.

 

Barcaças de madeira

Francisco Rodrigues da Costa [*]

Rebocadas ou bordejando, elas vinham carregadas das salinas e fundeavam na maré, onde permaneciam até quando a enchente do rio permitisse a passagem na boca da barra.

Saíam de barra afora com o vento soprando em suas velas, em belíssimas manobras feitas pela mestria dos seus marinheiros, que dava gosto apreciar. Após cobrirem um percurso de três milhas, atracavam no costado do navio.

AD, 1940?1950, Barcaça Salinas do Lloyd Brasileiro, Ad

 

Agora, outra operação se fazia necessária para o descarregamento. Eram os estivadores que entravam em cena. Um grupo de cinco homens era responsável pela transferência do sal do porão das barcaças para os porões dos navios, feita através de tinas com capacidade de setecentos a novecentos quilos.

Esses cinco estivadores, sob as ordens de um contramestre, se dividiam em dois operadores do guincho, dois que entornavam a tina com sal e um portaló que orientava o guincheiros na retirada do produto do porão dos veleiros para o convés do cargueiro. Quatro barcaças eram descarregadas simultaneamente.

Os navios que fundeavam no nosso lamarão recebiam sua carga completa, variando de quatro a oito mil toneladas. O Mandu, navio pertencente ao Lloyd Brasileiro, e maior cargueiro da América do Sul, como diziam, era o único que tinha capacidade para transportar onze mil toneladas.

A estadia de cada vapor no nosso porto demorava de oito a dez dias independendo do número de navios ancorados.

Hoje, um navio com capacidade de trinta mil toneladas é carregado na sua totalidade em questão de horas. As barcaças de madeira foram substituídas por embarcações de ferro, que não dependem do vento para a sua locomoção, e cada uma tem capacidade de transportar mil toneladas.

A estocagem de sal no Porto-Ilha é feita por elas independente de ter ou não navio ali atracado. Isso facilita um desempenho mais rápido no carregamento dos cargueiros. Atualmente com menos de dez por cento do efetivo humano que se exigia antigamente, opera-se um maior número de tonelagem do que antes. O progresso veio para destruir noventa por cento dessa mão-de-obra.

Pode-se até argumentar que se promovo aqui algo contra o desenvolvimento admirável alcançado pela criatura humana. Não, não é isso que inculca a mente desse incurável saudosista, que se ufana de sua Areia Branca ter, talvez, o único Porto-Ilha do País.

O que o faz meditar é saber que a quantidade de sal que se produzia outrora, em Areia Branca e Mossoró, é muito menos da que se fabrica hoje. E o mais interessante: dava para sustentar milhares de seres humanos, levando-se em conta, ainda, que os salários pagos ao operariado em geral causavam inveja a quantos dele tinham conhecimento.

Enfim, viva o progresso! Mas que dá para se ter uma grande saudade dos salineiros, barcaceiros e dos estivadores, ah!, isso dá.

[da obra Folhas de Outono, p.41/42]

[*] Francisco Rodrigues da Costa é escritor e autor de “Saudades”, dentre outras obras. Leia mais sobre o autor em Literatura e Artes