Um apito de trem

 

Foto Autor não ident., 1990?2000, Estação Ferroviária de Macau, arq. desconhecido.

O dia que o trem chegou em Macau.Década de 60. Era 5 da manhã. A maioria do povo dormia.  A notícia chega não chega como tudo sempre foi em Macau. Incertezas, incertezas, sofridas incertezas. O povo já estava agoniado. O monsenhor Honório se preparava para rezar a primeira missa do dia. O povo – uma parte – se preparava para ir à missa, ao mercado, ao trapiche em busca de água, aos currais para tirar leite das vacas. Aí, naquele silencio de salina formando, aquele apito horrendo, espetaculoso! É o trem! É o trem! E deixaram missa, mercado, trapiche, alcovas quentes e molhadas e correram todos para ver o trem!. Dona Pretinha também levantou e foi. Não ia perder nunca aquela visão primeira do trem rasgando mangues, aterros e salinas. Foi e levou metade da rua da Frente.  A criançada toda! Maria Florencio, da rua dos Paivas estava tirando leite das vacas do seu curral e já havia dito: Duvido que esse trem venha mesmo! É só promessa! O dia que ele chegar eu caio morta! Naquele dia, depois do vigésimo apito do trem, Maria Florêncio caiu morta junto do balde de leite no curral da rua dos Paivas. Há 30 anos o povo de Macau esperava o apito da locomotiva. Era como se a vida toda de Macau e dos macauenses fosse mudar. Não mudou nadinha. Só mudou a de Maria Florêncio.

Claudio Guerra em fevereiro de 2011.