Os cartões de Macau

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De Bevenuto Paiva, inestimável colaborador deste sítio recebemos estes cartões.

São cartões da década de 50, em comemoração à passagem de ano. São os anos do pós-guerra, os anos da guerra fria que se estenderiam ainda por várias décadas. Um dos cartões é da passagem 1954/1955. 1954 é um ano trágico. 24 de agosto foi o dia que Getúlio Vargas,  não suportando a pressão daqueles que dariam depois o Golpe de 64, sucumbiu tirando sua própria vida. Este episódio trágico deve ter causado grande comoção em Macau, uma cidade com forte influência do trabalhismo getulista.

Olhando os cartões de Macau com suas salinas, ruas, praças e construções, há algo que sempre nos inquieta. Nestes anos pujantes de Macau, seria possível imaginar que pouco mais de uma década estaria tudo transformado e nem mais restaria para o trabalhador o terrível trabalho nas salinas e nas estivas e que Macau se tornaria um deserto de homens?

O sessenta em Macau anuncia a catástrofe. O progresso não vem para melhorar a vida do trabalhador, vem para sujeitá-lo, humilhá-lo, escorraçá-lo! E foi o que aconteceu. As máquinas engoliram os homens com suas pás e ferros de furar e os carros de mão e as barcaças foram engolidos pelas esteiras. E foi um “deus nos acuda”: Natal, João Pessoa, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Santos, macauenses distribuídos pela costa atlântica. Outros enlouqueceram antes de transpor o istmo. Muito morreram na ilha sem forças para mais nada. Quantas tragédias, quantas maldades e os trabalhadores de Macau foram morrendo de ódio, de pavor, de medo, de saudade.

Os donos das salinas ficaram mais gordos e as salinas ficaram mais fortes e com mais lucro que agora não fica em Macau. É um lucro que vai para o Rio, São Paulo, Nova Iorque ou Londres.

O trabalho submeteu-se ao capital e restou a cidade morta.

Da equipe o baú de Macau.

 

Cidade Morta

A Afonso Tanidon de Barros

 

[*] Fagundes de Menezes

 

Os fantasmas desfilam nas calçadas

erguendo sobre as mãos o tempo morto

resquício de um outrora inda insepulto

transportado em galeras flamejantes.

 

O sol dardeja atrás do mangue esquálido

encardidas pirâmides de sal

destroços de moinhos na planície

sem préstimo na praia as alvarengas.

 

O rio agonizando entre as coroas

nem apitos de barcos nem miragens

canto fúnebre ecoando nas salinas.

 

Garças emigram, fogem andorinhas.

É preciso partir antes que a noite

povoe todas as ruas de cadáveres.

 

[*] Fagundes de Menezes, macauense,  é autor de Cárcere das Águas dentre outras obras. Leia mais em Literatura e Artes

 

 

 

 

 

 

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