Mas como dói!

Clarissa Guerra, 2010, barco abandonado rio Assu Macau, Arq. bau de Macau

Outro dia Bevenuto Paiva nos disse que um dos objetivos ao publicar seus textos e fotos no baú de Macau era o de provocar em outros macauenses o aflorar das memórias e que estas fossem reveladas e compartilhadas. Nunca é demais repetir Garcia Marquez, “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. Pois bem, foi da provocação dos cartões de Macau, enviado por Bevenuto, que José Saddock esculpiu suas recordações e nos revela. Ternas recordações do menino das ruas descalças de Macau.

Da equipe do baú de Macau

UMA JANELA PARA O PASSADO

[*]José Saddock

Lendo “Os cartões de Macau”, de Bevenuto Paiva, veio-me à memória a minha infância, principalmente na frase: “Macau se tornaria um deserto de homens”…

 

AD, 1950, GE Duque de Caxias, Arquivo Anaide Dantas

O mundo da minha infância consistia em duas ruas descalças, uma casa em ruínas e uma vila. Exposta às fermentações do tempo e do salitre, a nossa casa vivia caindo. As paredes mais pareciam uma pele chagada de cal e caliça, bastava tocar com um dedo e logo o reboco caía no chão, feito papel de areia. Mas éramos felizes, e eu tinha apenas sete anos… Quando chovia, a Rua São José, coberta de um barro vermelho e lamacento, protegia centenas de poças d’água que atravessavam o caminho. No meio do caminho não tinha uma pedra, mas uma poça d’água; ora espelhando o céu, ora escoando estrelas. O chão da vila era de malacacheta que nas noites de lua acendia tal lençol de alvíssima claridade, deixando escapar aqui e acolá pequenos feixes de luz multicoloridos. Era uma vila encantada, uma ponte que me levava a outro mundo, a outra rua, a Rua da Frente.

 

AD, 1950, barcaca, Arq Anaide Dantas

A primeira vez que vi a Rua da Frente fiquei maravilhado. Diante de mim se espraiava um imenso descampado onde meninos da minha idade corriam, jogavam bola, soltavam pipa, tomavam banho no rio pulando da rampa de “Seu Modesto”, pescavam minhoca com bolinha de cera, chiclete, miolo de pão, grudada numa linha ou num palito de coqueiro; subiam no frondoso pé de papoula, caiam, quebravam braços, pernas… prendiam besouro verde em caixa de fósforos para fazer rádio, apostavam corrida com carrinhos de rolimã… Era um mundo mágico, diferente. Unir-me a eles e passei a viver os melhores dias da minha vida.

Hoje, esse mundo parece esquecido. Uma janela para o passado, um baú de cordas, peças de madeira, ferros retorcidos; destroços de veleiros há muito abandonados, embebidos de história e idade: cristalizados. Há nessas coisas um cheiro remoto, antigo, de marinheiros fantasmas, de navegantes perdidos, de reza e martírio…

Um dia, olhando pela enorme fechadura de um dos antigos armazéns que ruíam com o tempo, deparei-me com uma barcaça sendo desfeita para o “aproveitamento da madeira de lei”. Percebi que no esquelético cavername, soltas cavilhas bailavam. No chão, retorcida e decomposta, a estopa do calafeto resistia. Não havia leme nem marinheiros, apenas silenciosas cracas incrustadas nas medidas, curvas e sonhos…

Você está certo, Bevenuto, Macau se tornou um deserto de homens. O sal que habitava em cada um deles era pedra, não caminho; passado que não passava, mesmo distante do ninho. Ser Macauense era ser pedra, por isso carregavam uma saudade salgada e densa. Viviam entre o mar e o rio; muito mais no rio que no mar, muito mais no deserto. Surgiram como uma fonte que a constância do tempo cristalizou; e o que era água se fez sal, branco e adormecido.

 

Capa do romance Barro Blanco de José Mauro de Vasconcelos

Surge, então, “Barro Blanco” e Chicão, seu herói maior, preso ao mastro de seu bote, no meio do mar. A morte se lhe avizinha, mas ele não se entrega. Briga com o seu fim como se fosse capaz de vencê-lo. Por que não, já vencera tantos homens na ponta da faca! Mas o sol lhe castigava. Sentia sede, delirava… Perpassavam-lhe pela mente sonolenta as ideias mais estranhas, as lembranças mais inesperadas e delirantes… Como pairasse suavemente sobre o tempo e toda imagem fosse apenas da lembrança e toda forma fosse apenas a sentida, ele se debruçava sobre o corpo de sua amada rapariga, Joaninha Maresia, e dele nunca mais se separava um dia… Queria um mar livre ou pelo menos navegável para voltar e morrer. Morrer no amor que viveu, onde o vento cantava a canção do silêncio e o campo florescia na amanhã dos seus olhos… Sentia saudade de Macau, da vida no Mata-Sete; sentia saudade dos amigos…

Raízes do passado, do flamboyant tombado sobre certa praça, sobre certo jardim… Na rampa, Fagundes de Menezes escreve uma carta ao Tempo, enquanto no horizonte o sol ofusca o tesouro do baú, trazendo a noite pelos braços… “mas como dói”!

[*] José Saddock de Albuquerque é macauense, escritor e poeta e colaborador deste sítio. Leia mais textos e poesias do autor em Literatura e Artes