Cidade e memória: da Jornalista Regina Barros

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Macau – uma Cidade sob os Olhares do Poeta

Regina Barros [*]

 

Foto: Autor não identificado, 1950?1960, Praça da Conceição. Arq. Bevenuto Paiva

Quando a tarde cai sobre Macau, o poeta Gilberto Cabral Edinor Avelino, nascido em 1928, costuma ir à janela do antigo sobrado da rua Martins Ferreira, onde funciona seu escritório de advocacia, para lançar um profundo olhar sobre a cidade. Os olhos de um poeta vêem muito além das aparências e Gilberto procura, incansável, vestígios da antiga cidade que ficaram registrados apenas na sua memória. Mãos insensíveis, aliadas aos efeitos do tempo, cuidaram de destruir ou deformar prédios, praças e ruas num contínuo e inexplicável projeto de descaracterização para sempre da história municipal. Resta, porém, ao poeta, a cada dia, um passeio imaginário pelas ruas compridas da sua infância. Para ele, a rua Martins Ferreira é um canal por onde descortina a cidade e tem acesso ao passado. Enquanto o sol desaparece ele revê lugares que não existem mais. A viagem, paradoxalmente, provoca prazer e dor no poeta. Na primeira esquina descobre que o enorme casarão do velho Quincas do Vale e o Cine-Theatro Édem desapareceram. A Praça da Conceição perdeu seu perfil e seus frondosos ficus. “O que fizeram com o clube Therpsícore, a pensão de D. Irene e a casa onde viveu o santo Monsenhor Honório?”, indaga. Ninguém lhe dá explicações e ele vai em frente.

 

Foto: Autor não identificado, 1980, Prédio da família Cariello, Arq. Desconhecido

CIDADE PERDEU A MEMÓRIA – Ainda há tempo para uma volta na Rua da Frente, hoje Augusto Severo, eternizada pelo escritor macauense Walter Wanderley. A prefeitura foi toda reformada e perdeu o charme que tinha à época do prefeito João Melo, quando era o ponto de encontro da fina flor da sociedade. A igreja também sofreu modificações. O altar de Santa Terezinha e as varandas que eram de madeira não resistiram ao cupim. As escadas que levavam a “alva torre do antigo presbitério”, onde seu Dudu, o velho sacristão, tocava os sinos, nunca foram restauradas. Um frio lhe passa pela espinha. Percebe que o piso do templo está afundando, o teto e o cruzeiro precisam de urgentes reparos. Tocado “pela pureza dos altares, cheios de eternidade”, faz uma prece para que não abandonem a Matriz da Virgem da Conceição. Desce os degraus e procura em vão pelo coreto da praça Monsenhor Honório, onde aos domingos a banda de música executava valsas e dobrados. Os alto-falantes, que encantaram gerações com a voz de Luiz Gomes, também não sobreviveram. O casarão onde morava o ex-prefeito José Fernandes de Oliveira, pai do poeta Aparício Fernandes, perdeu o andar superior. “Meu Deus! Aparício dizia que jamais poderia voltar à Macau se aquele prédio fosse demolido”, lembra comovido. O Bar Rochedo virou saudade. “O solar da família Cariello, que tragédia! Numa sombria tarde de inverno deixaram-no ruir solitariamente”. Enquanto a fértil imaginação passeia, por instantes, o poeta volta a ser menino. “Todo de branco, de calças compridas, magro” caminha pela Rua da Frente da qual é sesmeiro. A família Avelino ali reside eternamente. Corre ligeiro para não perder o toque de entrada para a primeira aula. “Mas, que pecado! Destruíram o velho Grupo Escolar Duque de Caxias!!!”, grita o menino. “A rampa do mercado, as barcaças, a “angra solitária”, o solar do ex-prefeito José Macedo, o sobrado de dona Ricardina, a Vila Maria, a usina velha, onde?”, lamenta. Nada mais resta senão desembarcar do sonho e retornar ao seu porto, solar quase centenário de Emídio Avelino, seu avô, que permanece intocável.

Foto: Autor não identificado, 1970, Grupo Escolar Duque de Caxias, Arq. Anaíde Dantas

PRESERVAÇÃO – O poeta Gilberto Avelino não é o único a lamentar o descaso com a preservação da memória da cidade, embora reconheça que na ilha de sal o “clima violento e impiedoso” contribui na corrosão da história. No entanto, lembra muito bem dos apelos que fez em defesa do Grupo Escolar Duque de Caxias e que se perderam na fria indiferença dos gabinetes palacianos. “Sob o pretexto de falsa e dolorosa economia descasos irreparáveis são cometidos”, diz o jurista. À dele, juntam-se as vozes do museólogo João de Aquino que, por esforço pessoal, preserva o pouco que resta do passado e a do professor e pesquisador Hélio Dantas, “filho espiritual da terra”. João de Aquino ainda não obteve o merecido apoio para o seu museu e se queixa da insensibilidade do poder público. Ao visitar a cidade no ano passado após trinta anos, Hélio Dantas não escondeu uma lágrima quando viu a Praça da Conceição. “Santo Deus! Transformaram a praça num calçadão!” exclamou indignado. “Chocou-me a completa descaracterização da cidade. Está irreconhecível”, contestou. Decidiu, naquele dia, iniciar uma pesquisa visando preservar através de fotos antigas, “toda a beleza desmoronada ou destruída, salvando a memória arquitetônica que encerra tanta tradição”. Com a ajuda de filhos da terra conseguiu resgatar quase duzentas fotografias de até um século passado. “Não desejo que esse patrimônio histórico e sentimental constitua um privilégio meu”, comenta o historiador, enquanto aguarda patrocínio para a publicação da sua obra de inestimável valor.

 

Foto: Claudio Guerra, 1982, Rua da Frente vista da calçada da Igreja, Arquivo: baú de Macau

O QUE RESTOU DO PASSADO – Das construções antigas restam poucas, além do sobrado construído por Emídio Avelino, que depois foi a escola do poeta Edinor Avelino e que há trinta anos é testemunha da luta do advogado Gilberto em favor do Direito. “Recebo aplausos, de pé, pela conservação do sobrado”, revela Avelino. O prédio do antigo mercado público felizmente foi preservado. O sobrado construído pelo Conde Pereira Carneiro, ainda se mantém. A cadeia velha, hoje Fórum de Justiça, resguarda a fachada original e nada mais. “É inútil pensar que as lembranças se apagam da memória, elas permanecem intactas e sempre são revolvidas pela vigilância incansável dos sentidos”. Se consola Gilberto. E, quando chega um novo crepúsculo, o poeta volta ao seu mirante e acompanhado pela sinfonia dos pardais que habitam o sobrado, não se cansa de repetir seu eterno canto: “Esta é a terra que amo. De rio em preamar sereno, onde, entre ferrugens e sombras, descansam âncoras, e navegam fantasmas de barcos cinzentos”.

Publicado no Jornal O POTI, 22/06/97

[*] Regina Barros é macauense e jornalista.