Uma guardiã de livros em Macau

Uma guardiã de livros em Macau

Foto: Autor Desconhecido, 1937, Desfile na Prefeitura Macau, Arquivo: Anaide Dantas

A biblioteca parecia ter nascido com ela. Na cidade, quando olhavam para ela, viam livros. E as crianças num misto de respeito e medo a chamavam de dona da biblioteca. – Lá vem a dona da biblioteca! Ela impunha respeito e medo. Que fossem lá estudar, pesquisar, ler. Mas nada de dobrar as folhas e nem sujar os livros: – As mãos estão limpas? Façam silêncio! Isso aqui é público, tenham zelo e cuidado! Sempre deveria ser assim com o público.

Na rua da Frente, à margem do rio maré, dentre aqueles prédios enfileirados, destacava-se. Um oásis junto àquela sequidão do prédio da água, do prédio do motor da luz e do prédio da burocracia da prefeitura. E junto ao rio mar ficava mais bela, mais imponente. O pé direito alto, muito alto. O forro de madeira pintado de branco. As paredes de um azulzinho bem claro. Uma cerquinha de madeira de verniz escuro dividia a biblioteca. As estantes altas, de madeira do mesmo verniz escuro e portas com vidro transparente, translúcido. Poeira nem pensar! Se via mesmo o cuidado que ela tinha com os livros. As portas não eram de correr. Tinham dobradiças e chave sob o cuidado da guardiã. Abria todas quando chegava e fechava todas quando saía. Nunca desapareceu um livro.

Foto: Clarissa Guerra, 2011, Livros, Arq baú de Macau

Foi nomeada por seu Albino, o prefeito e foi ali naquelas paredes altas que Donângela viveu seus melhores dias de bibliotecária cuidando dos livros como se cuidasse de filhos. Zelosa, dedicada, trabalhava mais horas do que ganhava. À tardinha, à hora do ângelus, fechava a biblioteca e chamava: – Maria, está na hora de fechar. E Maria mergulhada no São Bernardo de Graciliano nem ouvia. Agora, mas forte: – Menina de Luiz Bezerra, eu vou deixar você trancada!

Maria do Rosário trabalhava na secretaria de educação que funcionava na biblioteca. E Maria, leitora estava no mundo que pedira a deus. Livros. Graciliano Ramos, José de Alencar, José Lins do Rego, Monteiro Lobato e muitos e muitos. E Olavo Bilac, Castro Alves, e mais e mais. E Tolstoi, Dickens e Dostoiévski e Flaubert e mais e mais. E Manoel Bandeira e Camões e mais e mais. E muitos outros, brasileiros e estrangeiros estavam todos ali ao alcance da mão. – Só não vá dobrar a folha e estragar os livros. Isso é dinheiro do povo!

Mais tarde, sem salário sem nada, Donângela voltava para abrir a biblioteca e receber os visitantes da noite: caixeiros-viajantes, depois viajantes, depois representantes comerciais. Ele recebeu todos ao longo das décadas. Até o dia que a mesquinhez da politicagem da cidade levou um prefeito a demiti-la e pior acusá-la injustamente, maldosamente. A farsa não prosperou. Não se provou nada porque não tinha nada para provar contra ela. Foi inocentada, mas o estrago já fora feito e o coração ferido para sempre! Quanta maldade! Quanta mesquinhes! Não mataram só a guardiã dos livros, mataram a biblioteca também.

Oleo sobre tela de João Vicente Guimarães. O incêndio da biblioteca de Macau

A biblioteca eu a conheci em 1981, entre novembro e dezembro e me surpreendi com o acervo riquíssimo de brasileiros, portugueses, franceses, ingleses, italianos… tudo queimado no incêndio de 1982. Os tempos tenebrosos estavam melhorando, mas ainda fazia escuridão. Os livros um perigo! A biblioteca um lugar de conspiração. E então veio o Fahrenheit 451 de Macau.

E depois só cinzas. O grito lancinante, de doer é da professora mestre Geisa Melo na dissertação de mestrado, em 2009: “Na biblioteca Municipal de Macau nos deparamos com uma realidade que é angustiante: a inexistência de um acervo sobre a história do município e a precariedade do acervo existente. São situações como estas que tornam difícil o trabalho de quem está iniciando a pesquisa histórica. …”

Foto:Autor desc., Um jovem, um rio e um barco em Macau da década de 50, Arq. Bevenuto Paiva

Bevenuto Paiva também revelou boas e péssimas memórias da biblioteca Rui Barbosa da prefeitura de Macau. Quando jovem, revelou, foi naquele templo que recuperei meus anos de estudo perdido. Foi daqueles livros que tracei meu futuro, de leitor, principalmente. E quando, em 2010 foi buscar na nova biblioteca instalada no andar superior do Banco do Brasil um livro que falasse de Macau, não encontrou mais nada! O livro de Getúlio Moura sobre a história de Macau, indagou? Não tem mais, foi a resposta. Mas como? Indignou-se.

E quantos e quantos macauenses ou visitantes que viajaram e sonharam naquelas paredes altas da biblioteca municipal buscando a seiva do conhecimento?

Foto: Autor desconhecido, Professor e Poeta Manoel Nazareno da Silva em 1993 no Festival de Poesia de Macau, Arquivo, João Eudes Gomes

E por fim, ao ler a entrevista do digno Professor Nazareno à Folha de Macau, tenho razões para dizer que foi na biblioteca municipal que o professor aprimorou, lendo Machado de Assis, a fina ironia que usa para desmascarar os pústulas que teimam destratar a educação.

Só para lembrar. Não existe complexo literário. Isso é uma invenção sofrível do “marquetingue” oficial do nosso tempo! O que deve existir é um local amplo, climatizado, protegido, cuidado e agradável com livros, muitos livros à espera do leitor ávido por conhecimento e saber. O resto, emprestando a frase do Millôr Fernandes, “é armazém de secos e molhados.”

De Claudio Guerra para o baú de Macau.