Babalú

Babalú

Imagem Google, 10 9 2011, couto 9802.jpg, estaçõesferroviárias.com.br

Enfim, o trem apitou. Um apito esperado por quase trinta anos. O povo inteiro da cidade aguardando. Muitos morreram sem nunca ouvi-lo e outros nasceram e morreram e o trem não apitou. Mas um dia haveria, era o que todos diziam. E naquela manhã luminosa de agosto de 1960 aconteceu. O primeiro longe da estação, um pouco antes de cruzar o istmo, bem onde morreu Alberino, soldado e cassaco que trabalhou na colocação dos trilhos. Depois foi apitando pelo meio daqueles salgados parecendo um bicho do cão. Forte, agudo e nunca ouvido naquele ermo de salinas. As pirâmidezinhas de sal, estremeceram. E assim naquele sábado, seis da manhã o trem chegou assustando o povo e interrompendo as matinais. Homens e mulheres pularam da cama para ver o trem. E até Babalú, que não era gente, assustou-se. O apito foi alcançá-lo lambendo um bocado de açúcar mascavo no bar do Amiguinho. Passaria ainda nas padarias do Antonio Gordura e do compadre Horacinho para lamber açúcar. Era sua rotina diária. Ouviu o primeiro apito, levantou a cabeça e parou de lamber. Olhou cismado para o empregado do Amiguinho que também assustara-se. O segundo apito, mais forte e mais próximo foi o que provocou a tragédia pessoal de Babalú. Ele procurou a porta de saída derrubando mesas, cadeiras e tamboretes que ficaram espalhados até na calçada. E correu em disparada pelos becos da cidade, espantando o povo. Furou três cercas de avelós, derrubou quatro bancas da feira e um sem número de latas d’água que os aguadeiros jogaram no chão para fugir.

Foto Claudio Guerra, 1984, bois, arq baú de Macau

Foi buscar refúgio nos confins da ilha, perto do campo de futebol e só parou quando encontrou o mar. Ficou ali num lamento desesperado até que Chico Doido, o vaqueiro do curral, depois de ir ver o trem como tinha feito toda a cidade, foi buscá-lo. Babalú, alto, forte, pelagem azulada brilhante, lindo, lindo, admirado por todos, vinha agora com a cabeça baixa, envergonhado. O povo todo zombando de Babalú. Bem diferente vinha Chico Doido. Era uma alegria sem comedimento. Enfim, vingava-se do touro a quem invejava. Ele Chico, quase um ogro, sem eira, nem beira, sem mulher e sem nada. E Babalú com um curral todinho só dele, ração de primeira, açúcarzinho na boca e dez vacas ancudas, pretas, brancas, malhadas, grandes e pequenas.

De Claudio Guerra para o baú de Macau  [Das memórias de Zé de Hipólito, de Maria do Rosário, de Anete, de Terezinha e de Amélia]