Só a arte pode nos salvar

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O QUADRO DO MUNDO

[*] José Saddock

Ao Amigo Cláudio Guerra.

 

Foto Claudio Guerra, 1985, Moinho Passarinho, arq o bau de Macau

Há dias em que não seria capaz de passar sem apreciar minuciosamente este quadro, pois me compraz o seu tema, a sua indiscutível beleza, e a sua maravilhosa harmonia de cores; algumas vivas, outras sombrias; mas o que sinto então não é tanto a fluidez da arte, antes mergulho numa saudade inexplicável, profunda, que jamais imaginei estar. Vejo-o e volto no tempo; banhado ainda de certa reverência, de um olhar contemplativo, que dá àquilo um significado especial, imanente ao sensível, como se fosse uma fuga… Dentre os acontecimentos de certo modo intrigantes, que, estranhamente, não sei explicar, havia um homem que levava o filho para ver o pôr-do-sol daquele antigo e esquecido mundo. O filho, que contava apenas dez anos, estava encantado diante da beleza do rio e do fenômeno da luz, nunca tinha presenciado nada mais belo e singular. Logo percebeu que ali se dava uma luta crepuscular entre o fogo e a água: vencido, o sol naufragava, deixando a tarde enlutada. Repentinamente, dos escombros, surgiam armações de moinhos, que, fundidas às pirâmides, dava ao observador a sensação de estar num mundo irreal; ainda mais pela claridade que fluía do espaço em silente cavalgada, banhando de luz o chão das salinas. Esse entrechocar-se de tempos, de crepúsculos e manhãs, fazia-me compreender que o mundo amadurece diferente de nós, seres humanos; vivemos a infância num mundo antigo, a maturidade num mundo em transformação e a velhice num mundo conturbado, estranho às nossas raízes.

Foto Getulio Moura, 2009, Moinho Passarinho, arq GM

Por isso, quanto mais o observo, mais me convenço de que a arte é tudo que me resta. Como é espetacular poder ver, com alguma antecedência, as metamorfoses que movem o mundo de cujo surgimento se faz sentir a experiência, e poder ouvir: – Segue teu caminho, viver é inevitável! Assim, pois, as coisas envelhecem na memória do que foi, no espaço indivisível da maturação, feito boca faminta que se cala diante do inevitável; assim, o Quadro do Mundo continua ali, indiferente às mutações do tempo, içando velas para mares nunca dantes navegados.

No momento em que seguiam ao longo da margem, uma barcaça passava subjugando a quietude e dispersando o céu vermelho em brasas espelhado no azul das águas. – Olha bem, meu filho, olha bem como o mundo é maravilhoso! – dizia o homem, enquanto sentava a criança no parapeito do cais. O menino parecia agitar-se, como para articular alguma palavra, porém, se manteve em silêncio. Talvez, tenha mesmo acreditado que pertencia àquele mundo; e, sem nenhum argumento que lhe servisse de fuga, sem nenhum álibi que lhe fizesse mais livre, continuou a olhar, impassível, o mundo que um dia estaria nas suas lembranças mais remotas e contidas… Essas imagens que se sucediam no deserto do inconsciente, desabavam sobre mim, cobriam-me de areia, faziam-me ampulheta. Ah, que cores harmoniosas!…

Foto Getulio Moura, 2010, Moinho Passarinho, arq GM

Já vi cores encantadoras, mas essas me fazem emudecer, porque o que tenho a perguntar não está nas cores, mas no mundo – respondo a mim mesmo, aparentemente indiferente, mas com certa angustia – Há muito que resolvi quebrar o espelho, mas ele continua intacto; como essa tela que permanece branca, embora a tenha pintado tantas vezes; a prova está aqui – finjo mostrá-la, tocando nos pinceis e nas tintas, tal como os encontrei, mas desisto – Do lado oposto, o céu declinava na escuridão da noite, enquanto eu, impávido, navegava nas lembranças de um mundo distante.

[*] José Saddock é macauense, escritor e poeta. Leia mais sobre o autor em Literatura e Artes

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