Macau, um pouco da história e um apelo do Professor João Felipe

0

Macau mais antiga

João Felipe da Trindade (jfhipotenusa@gmail.com)

Professor da UFRN e membro do INRG

Dia 9 de setembro de 2011, Macau completará 136 anos que foi alçada a condição de Cidade. Antes foi Vila e chegou a ser a sede de Angicos. Mas a história dessa povoação começou bem antes. Já sabemos que Macau começou a ser povoada maciçamente quando migraram para lá os habitantes da Ilha de Manoel Gonçalves, por conta da invasão do mar.

Não se sabe, ao certo, quando o nome Macau apareceu nos mapas e documentos do Rio Grande do Norte. Não encontrei nas sesmarias do Rio Grande do Norte esse nome.

A sesmaria pedida por Francisco Carvalho Alcacer (Valcácer), em 1780, menciona locais como Ilha do Pisa Sal, Água Maré, Mangue Seco, Trapiche. Outra do mesmo Valcácer, datada de 1782, cita locais como Cambôa dos Barcos, Barra do Amargoso, Armazéns, Fazenda Amargoso, mas o nome Macau não aparece, embora o documento pedisse todas as ilhas que estivessem dentro daquelas terras. Algumas informações sobre Macau e adjacências estão ocultas em alguns documentos e outras espalhadas em diversos livros. A cada momento surgem novas descobertas e precisamos ir atrás de outros documentos para consolidar a História de Macau.

Foto autor não identificado, 1920?1930, Rua da Frente, Arquivo: Getulio Moura

No livro de Dioclécio D. Duarte – A indústria extrativa do sal e a sua importância na economia do Brasil – ele escreveu: As salinas do Assú e Mossoró (Revista do Instituto Histórico e Geográfico e Etnográfico do Brasil – Tomo XLVI – pag. 174) que se estendem em um espaço de costa, desde Água Maré até a barra de Assú, por 36 léguas, eram uma costa realenga, habitada por pescadores, que secavam o seu pescado e vendia para o Recife de Pernambuco e tiravam sal, que traziam para o pontal da barra do Assú e barra dos Cavalos, onde fundiam as sumacas, e eles vendiam o sal cada um alqueire a 60 e 80 réis.

Frei Manoel (de Jesus Maria), religioso carmelita do convento da Cidade de Olinda, no ano de 1792, tirou esse terreno por sesmaria em nome do seu pai (Valcácer) e aposentou-se lá de morada, dando 200$000 ao convento, e com a procuração do pai desapossou desta costa todos os moradores, deixando somente àqueles que estiveram pela dura condição de lhe darem metade de sua pescaria, depois de beneficiada e não tirarem o sal.

Compra a fazenda de criar gado junto ao rio das Conchas, chamada Cacimbas do Vianna, por 1:000$000 e a fazenda chamada Amargoso, por 1:200$000, e por este modo fica só com o exclusivo do sal, que vendia às sumacas a 160 e 200 réis.

Sabe ganhar amizade dos carregadores da comarca de Paraíba e com violência despeja um grande numero de povos que ali habitavam, tão úteis a Pernambuco pelo fornecimento do seu pescado seco; não obstante do maior número desses povos terem sido mais antigos em habitar este terreno e por isso tinha a preferência na conformidade da carta régia sobre as sesmarias e Ord. Do livro 4 tits. 57 e 58, que mandam preferir a posse a donativos das terras que contestam sobre aquele que tiram por sesmaria.

Foto: Getulio Moura, 2009, Delta – Macau-RN, Arquivo: GM

Finalmente cresce a indignação nestes povos sobre este padre e houve uns assassínios, em que ele saiu culpado, indo esse processo crime a Lisboa, foi sentenciado para Angola, não chegando a cumprir este extermínio, porque morreu no ano de 1806.

Suas terras foram repassadas para sua irmã, D. Rosa da Fonseca, sendo ambos filhos de Francisco Carvalho de Valcácer e Joanna Maria da Fonseca.

Na escritura das terras vendidas por Dona Rosa da Fonseca, no ano de 1797, está escrito que Macau, Trapiche, Quatro Bocas, Armazéns e Barreiras foram herdados dos seus pais Francisco Carvalho de Valcácer e Joanna Maria da Fonseca; na relação das 13 léguas pertencentes ao Coronel Bento José da Costa, dessas mesmas terras, consta que a Ilha denominada Macau, com uma légua de Leste a Oeste tinha 4 fogos (casas), não servia para criar, por não ter água.

Quando em 1810 foram feitas as avaliações das terras pertencentes aos bens de Domingos Affonso Ferreira e sua mulher Donna Maria Theodora Moreira de Carvalho, a descrição feita pelo Administrador dessas ditas terras, e procurador de Bento, José Álvares Lessa, era a seguinte: Ilha denominada = do Macáo = com uma légua de comprimento do Norte, e Cambôa dos Barcos a Leste, e Nascente até a Cambôa do Amargozinho, e com largura de três quartos de légua; tem ruins salinas, bons pastos para gado, porém não tem água doce; vista e avaliado por cinqüenta mil réis.

Segundo Francisco de Assis Gondim Menescal em “Algumas notas sobe as propriedades da Companhia Comércio e Navegação no litoral do Estado do Rio Grande do Norte (Coleção Mossoroense)”, quem recebeu as terras e tomou posse como Administrador das mesmas foi Felipe Rodrigues Santiago, procurador dos compradores. Ele perante o tabelião público da Vila Nova da Princesa, Manuel José de Azevedo, lançou três vezes terras para o ar, abriu e fechou porteiras do curral da mesma fazenda, meteu e fincou estacas e finalmente cortou ramos e fincou uma grande cruz de pau de imburana entre o curral e a cerca. Diz mais: fincou finalmente uma cruz de trinta ou quarenta palmos no porto onde chega a maré.

Já em 1810, estava como Administrador José Álvares Lessa. Em 1818, quando da invasão dos piratas ingleses à Ilha de Manoel Gonçalves e adjacências, chefiava o degredo da Ilha, Alexandre José de Sousa. Naquela mesma data já se encontrava o Capitão João Martins Ferreira, como administrador das terras de Bento José da Costa.

Essa posse foi mantida por 71 anos, sendo transferida , em 26 de fevereiro de 1868, por Bento José da Costa (Junior) e sua mulher Emília Júlia Pires Ferreira ao capitão José Gomes de Amorim.

É importante que a Prefeitura de Macau, junto com as empresas que atuam naquela região, faça, urgentemente, a digitalização dos documentos antigos que se encontram no arquivo do Fórum, antes que eles desapareçam.

 

Deixe uma resposta