Macau de Ontem e de Hoje: Esta é minha Terra

Macau de Ontem e de Hoje: Esta é minha Terra

[*] Izan Lucena

Foto Getulio Moura, 2009, Entardecer em Macau, Arq. GM

 

Compreender o sonho, eu diria, é saber que o sentido poderia ser outro. Ás vezes, à noite, me arrebata a lembrança de meus amigos, que como eu, também frequentava a minha Macau, nos anos idos que morei e enterrei a minha alma nesta terra, voltando a bordo da nave dos sonhos, me transporto para lá. Olhando o rio Piranhas Açu, deixo que as narinas sejam dominadas pela aurora do ar da puberdade, que paira, reverbera e revitaliza a Rua Marechal Deodoro, quem dera além da cidade! Subo a rampa da Empresa Matarazzo com meus pés e estaco um momento na entrada de uma velha barcaça onde brincávamos quando criança. Fecho os olhos e vejo todos sorrindo, rindo, rindo, rindo das travessuras da infância. O velho mercado onde se vendia de tudo, as riquezas dos sindicatos, as retretas nas tardes de domingos, os cinemas “Dois Irmãos e São Luiz”, os carnavais do Lions Club, Futebol onde tínhamos o ABC, América, Unidos, e Flamengo de Dona Pretinha, campeonato de blocos, a velha Praça da Conceição onde conversávamos de tudo e de todos, o Aspuma, enfim éramos felizes na terra das salinas.

Foto Seu Santos, 1962, Flamendo de Dona Pretinha, Badoleu, Moçada, Zilmar, Ariboboca, Zeca e Naldinho; Chico Macau, Zé de Hipólito, Toutinha, Veo e Vescio. Arq. Zé de Hipólito.

O fato relatado serve somente para o povo macauense, os verdadeiros filhos de Macau. Aqueles que sonham em um dia voltar a sua querida cidade. Assim como dizia o nosso grande poeta Gilberto Avelino: “Esta é a terra que amo. De rio em preamar sereno, onde, entre ferrugens e sombras, descansam âncoras, e navegam fantasmas de barcos cinzentos.” O poeta encarava o seu realismo com tanta serenidade e não pensou que um dia a sua Macau pudessem ter na sua história a emigração de seu povo. Daquela terra que tanto amava hoje emigram até as andorinhas por causa dos políticos que existem na nossa cidade. Houve tempo de mansos rumos da cidade onde o antigo presbítero Monsenhor Honório sussurrava nas suas rezas o seu canto de amor à terra das salinas.

Olhando o passado me vem às lembranças da minha antiga Macau, quando nos sábado víamos a prosperidade nas feiras do Mercado, onde do alto da torre da Igreja, divisavam-se, lá fora no lamarão, às cinzentas silhuetas dos navios “Tibagi, Mogi, Meriti, Francisco Matarazzo”, de chaminés em densos fumos, espalhando-se entre o azul, o vento e o sol. E para os seus porões escorria o sal produzido pelas “melhores salinas do Universo”.
E dessa terra emanavam sobrevivência e empregos de várias formas. Os fortes músculos dos ágeis cabeceiros conduziam à rampa, a carne verde sangrando para os ranchos dos navios, aportados a nove milhas das areias da costa. Sobre as águas do rio deslizavam, rude labor portuário, as quilhas da Mabel, Aura e da São Pedro, e as proas, em rumos serenos, dos rebocadores Ricardo e Macau. E longamente, apitavam as lanchas Patativa, Fely e Liberdade. Ah, as grandes lutas dos marítimos, conferentes e estivadores que ainda hoje tremulam as bandeiras de reivindicação dos mesmos, comandados pelo grande líder sindical “Francisco Mariano”.

Foto autor não identificado, 1950?1960, Da torre da igreja, a praça, o rio e as barcaças de sal, Arq. Bevenuto Paiva

Macau como polo para todas as outras cidades circunvizinhas fazia com que tudo girassem em torno dela. No quadro do Mercado se vendiam de tudo de vara a carvão, de batata a feijão, de chita a seda era a pujança da fartura. A prosperidade alentando a alegria e sonho do povo. O povo acreditava nos seus governantes, porém hoje diria como um dia dissera o velho e famoso, Tributino: “Não sou ladrão”. Como diria o poeta Alfredo Neves “Macau” vive hoje uma lamúria, onde guerras, infâmias, degradação, injustiças entre os políticos, porém têm na paz, na justiça, na natureza, na família, no amor e na vida suas maiores realizações; e acreditando nesses sonhos veremos a nossa cidade em plena prosperidade.

Foto Getulio Moura, 1998, predio na praça da Conceição, arq. Jose Arimateia Gomes

Deparamos hoje com uma instabilidade política vivida no seio desta terra amada por muitos macauenses e não macauenses, como o Mons. João Penha. Certo dia ao visitá-lo e dizê-lo que era de Macau. O mesmo bateu no peito e disse: Terra querida, terra por mim amada. Refletimos sobre tudo isso pensamos com saudade dos nossos grandes guerreiros e homens de vergonha como: Francisco Mariano, Zé de Damiana, Floriano Bezerra, Joaquim Maurício, Geraldo Martins, Venâncio Zacarias, Afonso Tanidon Barros, Manoel Fernandes Leonez, Geraldo Lucas, Antão Montenegro e outros, que não deixavam que comprassem sua dignidade, que não deixavam que comprassem o nosso amanhã, que não deixavam que rompessem os cofres públicos, que não deixavam de sonhar com uma Macau livre e de vitória duradoura.
Hoje as notícias que ouvimos e lemos de nossa cidade Macau é a mais terrível possível, cheguei a ouvir de um jornalista do Jornal de Fato “que as pessoas que governam a cidade de Macau passam 24 horas pensando em como roubar o dinheiro público destinado à cidade de Macau”.

[*] Izan Lucena é macauense, morou na Marechal, é poeta e escritor. É colaborador deste sítio. Leia mais em Literatura e Artes.