O trem da vida

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O TREM DA VIDA

[*] José Saddock

Por favor, não pisem nos meus versos – foi, decerto, um descuido, diria alguém, indiferente – versos são imagens, tais como quadros que se vêm pintando há muito tempo, passando a existirem – Antes, o mundo não os tinha, assim como aos meus versos; portanto, ao se depararem com estes versos, apanhe-os, pois eles pertencem ao mundo; transcendem-me, porque não posso me conhecer, apenas me escrever, apenas me pintar.

 

Foto autor não identificado, 1970?1980, Mercado velho, arquivo desconhecido

Era reconfortante ler alguns textos antigos e empoeirados que ficavam esquecidos na estante ou em alguma gaveta, perdidos. Faziam-me, de certa forma, repensar esse mundo contemporâneo, distante centenas de quilômetros da cidade onde algum menino nasceu, e a mais de cinquenta anos do seu nascimento. Esse mundo de violência e poluição, de concreto e aço, duro quanto à indiferença.

Veja as cidades, por exemplo, parecem eternos, sisudos, contidos; celebram o sentido da vida, descobriram um lugar seguro para reinventá-la – a vida antiga estava obsoleta, velha, caduca –. Nas cidades, morre-se a cada instante e revive-se em outros mortos, porquanto essas vidas vividas nas vitrines, bares, becos, ruas, não refluem para a natureza do ser, mas para a busca do ter… Nas cidades, não se tem nenhum tempo, não se olha para cima, as coisas passam despercebidas, às escuras, cruelmente aflitas, apenas enferrujando a alma, deteriorando o corpo, tornando-o cambaleante, alongado, poluído, distante – um corpo a mais, sem nome e rosto –.

Na calçada, um anúncio:

Quero um mar cibernético,

um vento sintético,

uma lua que eu possa apagar.

Quero a morte de vidro,

renascer in vitro

em algum laboratório escatológico.

Quero ler a vida que se diz humana

nos registros antropológicos.

Pensar que sou imortal

na possibilidade do metal.

Mais nada!

– Ó Deus! a ciência não pensa, nem eu!

 

Ouço passos, será que são meus; não, os meus são diferentes, não parecem iguais àqueles distantes. Caminho sempre com algumas dúvidas porque é difícil ver o outro em mim, porque não me procuro no outro; o que imagino ser o outro, talvez, seja mesmo o meu espelho, apanho-me, tantas vezes, dando um bom dia a mim mesmo, embora nunca me abrace… ops!, quase caí, mas não, apenas um escorrego; são essas calçadas irregulares, diferentes umas das outras, assim como nós, seres humanos.

Em tais condições vejo aquela pobre gente que passa pelas ruas à deriva. Alguns não sem corpo, apenas vestes; outros não sem vestes, apenas corpo, mas todos infelizes…

A humanidade não é uma raça, mas uma espécie… Pegamos o mesmo trem.

O trem da vida parte para o mundo, surge e não para mais, lá vai à vida subindo colinas, descendo desfiladeiros; atravessando desertos, pântanos, florestas, cidades, seguindo os trilhos do destino; tudo passa e volta a passar, infinitamente; e a vida continua presa aos trilhos, passando como se estivesse exibindo o mesmo filme.

Essa produção não é nossa, não a dirigimos. Somos relevados a um papel secundário, quando podemos ser protagonistas; permitimos que algum roteirista escreva a nossa história, quando podemos escrevê-la; assistimos a um filme que se projeta muito mais pela miséria, egoísmo e indiferença, que mesmo pelo reconhecimento de nossa potencialidade criativa.

É Preciso, pois, libertar a vida, descarrilar o trem, sair dos trilhos! Devemos compreender que a vida se dá, efetivamente, no plano da consciência, na perspectiva do domínio das ideias e nas demais realizações que podemos assumir como autor e não como coadjuvante nessa prodigiosa produção cinematográfica.

Saiamos dos trilhos, façamos o nosso próprio filme, e se ninguém assisti-lo, não tem nenhuma importância; o importante mesmo é que passemos a viver da forma mais ampla e significativa possível, que tenhamos dado a nossa valorosa contribuição para as mudanças tão necessárias à vida, que descubramos o outro em nós mesmos, para nos salvarmos num grande e solidário abraço.

[*] José Saddock é macauense, escritor e poeta. Leia mais em Literatura e Artes

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