Ditadura, choro e papagaio

1

Ditadura, choro e papagaio

Foto autor não identificado, 1940?, Trabalhadores do sal com balaios carregando a barcaça, Arq. Desconhecido

A primeira vez que ele percebeu que alguma coisa não estava bem foi quando ouviu seu pai chorar. Naquela sua curta vida, ele nunca ouvira seu pai chorar. Estava no quarto que dividia com o irmão mais velho, na sua rede ainda cheirando a nova. Seu pai conversava na sala com alguns homens. Ele reconheceu a voz de todos eles, quatro, contando com o seu pai. Falavam baixo, quase aos sussurros e depois saíram um a um e quando o último saiu, ouviu seu pai chorar. Ele tinha oito anos e sua vida era o Grupo Escolar Duque de Caxias pela manhã e a beiço do rio maré de Macau no resto do dia, atolando-se na lama apanhando búzio, jogando bola com os amigos ou simplesmente vadiando. Estudava só para as provas, apesar da mãe cobrá-lo todo dia. – A lição de casa! Gritava ela. Ele faria sim, mas de manhãzinha, às carreiras, atrasando-se quase todo dia para a aula. Da conversa que chegava até sua rede naquela casa sem forro, ouvira falar de um golpe militar e que compadre Floriano fora preso para Natal e que vários outros trabalhadores também seriam presos. Eram homens que ele conhecia e admirava. Eram os homens que junto com seu pai lutavam para que todos tivessem uma vida com mais dignidade.

Foto Seu Santos 1960?1970, Alunos do Duque de Caxias, arq. Benito Barros 1957-2010

A segunda vez que ele percebeu que alguma coisa não estava bem foi quando ouviu sua mãe chorar. Ela conversava na sala com a vizinha que era professora. Desde aquela época em que seu pai chorou, a vida tornara-se muito difícil para eles. Agora ele tinha onze anos, estudava com mais afinco e só aos domingos ia para o beiço do rio maré. Fazia alguns biscates na cidade e levava o dinheiro para sua mãe. Seu pai fora preso naquela mesma época que havia chorado, ficou naquele preso e solto por muitos anos. Quando sua mãe chorou ele também estava na rede no mesmo quarto, mas agora sozinho. Seu irmão mais velho mudara-se para Natal para fazer faculdade e vinha todo mês visitá-los. Chegava esculhambando os militares sob os apelos temerosos da mãe para que baixasse a voz e que já bastava um preso na família. E sua mãe chorou porque a vizinha viera lhe dizer que chegara na cidade umas máquinas enormes que iam acabar com o emprego de todos os trabalhadores das salinas.

 

Foto autor não identificado, 1980?, colheita do sal mecanizada, arquivo desconhecido

A terceira vez quem chorou foi ele. Tinha doze anos e estava deitado na sua rede. Era noite e a cruviana cantava impaciente por entre as árvores e a areia fininha entrava pelos vãos das telhas e caia sobre ele. Já era noite alta e ele não conseguia dormir. Chorava baixinho para a mãe não ouvir. E chorava por vários motivos. Primeiro porque o seu time perdera de uma só vez o goleiro e o centroavante porque o pai fora demitido da Matarazzo. – Vamos para Santos! Painho diz que lá tem emprego! Disse-lhe o centroavante quase chorando. O segundo motivo e talvez tenha sido este mesmo a razão principal do seu choro foi porque a menina bonitinha de cabelos encaracolados e rostinho de anjo, que há dois meses trocavam olhares quando ele passava para ir à padaria, naquele dia não estava lá na janela como sempre ficava. Na volta, não aguentou e foi saber. A vizinha lhe deu a notícia cruel. – Maria Ciranda? O caminhão levou a mudança deles hoje cedo. Mudaram-se para Natal. O pai foi demitido da Companhia e Comércio. Deixaram as gaiolas e os dois canários de lembrança para o meu pai.

Neste mesmo ano choraria de novo. Ele e todos da casa. Seu irmão chegara esculhambando os militares. O pai preso novamente. A mãe rogando que falasse baixo. Eles almoçavam quando o papagaio deixado pelo antigo vizinho que fora demitido do Lage e mudara-se para o Rio de Janeiro cantarolou na varanda do fundo … Di-nar-te, … Di-nar-te, é – o – nosso se-na-dor! O seu irmão mais velho parou de mastigar, olhou interrogativo para a mãe, levantou de supetão derrubando a cadeira e foi lá, arrancou a corrente do gradeado, pegou a avezinha com violência e atirou-a contra a parede. Gritou – Papagaio filho da puta, bicho do cão dinartista reacionário! A mãe rogou a Nossa Senhora dos Navegantes. – Minha santinha, meu filho enlouqueceu! O menino, desesperado, foi lá e apanhou a avezinha inerte. Olhou desconsolado para o irmão – Mas meu irmão, agora que ele estava quase aprendendo o hino do Flamengo? E disparou no choro.

1

  1. wonderful issues altogether, you simply won a logo new|a new} reader. What would you recommend in regards to your submit that you simply made some days ago? Any positive?
    louis vuitton outlet http://louisvuittonoutlets2013.overblog.com

Deixe uma resposta