Entre pirâmides de sal, a cavalaria cossaca

Entre pirâmides de sal, a cavalaria cossaca

 

Foto E Valle, 1941, Cavallaria Cossaca no aterro, arquivo: Francisco F. Maia

Peço que ele escavaqueie a memória e desencave alguma lembrança da cavalaria cossaca. Por fim, me disse: – Eu devia ter seis ou sete anos, sim! Me lembro de alguma coisa, homens fazendo acrobacias nos cavalos! Era domingo e mesmo assim nós estávamos lá com nossos uniformes escolares. Estavam lá grande parte dos homens de Macau, de chapéu, mesmo com o vento do descampado. Só via pouco mesmo, as mulheres, recolhidas nos seus afazeres domésticos. E foi assim que estupefatos os macauenses, mais acostumados a ver vacas nos currais, um ou outro cavalo do valentão que chegava na cidade, burricos carregando barricas d’água e tropas de mulas que cruzavam o istmo com mercadorias, assistiram entre o rio-mar e as pirâmides de sal, as proezas inacreditáveis da cavalaria cossaca, homens destemidos que galopavam de pé nos cavalos e faziam todo tipo de malabarismo possível e imaginável nas selas daqueles belos animais.

Foto E Valle, 1941, Cavalaria Cossaca no aterro, Arquivo; Francisco Fernandes Maia

Era seis de julho de 1941 e no rio ainda entravam e saíam barcaças. Os navios no Lamarão. Os marinheiros pela cidade. A ferrovia empacada desde 1920 em Pedro Avelino que era Epitácio Pessoa. Corria dinheiro. O penoso trabalho nas salinas e nas barcaças. A tragédia viria depois, muito depois, quando até o terrível trabalho sucumbiu ocupado por máquinas e esteiras. Por essa época ninguém nem sonhava que os empregos sumiriam. Perguntaram o que fariam o salineiro e o estivador sem o trabalho? Não. Estavam muito ocupados cortando cupões acionários. O lucro gritava mais alto e assim, impossível ouvir o grito do trabalhador.

O fotógrafo Emídio do Valle registrou a cavalaria cossaca. As fotos são do arquivo de Francisco Maia e nos foram encaminhadas por Bevenuto Paiva.

De Claudio Guerra para o baú de Macau.