Memórias da água – Das memórias dos amigos macauenses

0

Memórias da água – Das memórias dos amigos macauenses

Foto Claudio Guerra, 1982, botar agua de ganho, o calão, arquivo: o baú de Macau

Zé de Hipólito, memorialista macauense recorda as dificuldades da água em Macau. Lembra-se que na rua Padre João Clemente quase de frente ao Ginásio  do Padre [CEIMH] existia uma cisterna que vendia água. Ela ficava localizada vizinha à casa de Jorge Caiçara e seu Godofredo Coutinho era quem supria a água da cisterna. José de Arimatéia também se lembra dessa cisterna e morou vizinho a ela. “Ela devia ter  uma capacidade de 10 mil litros.”, diz ele.  E diz também que ela fazia fundos com o Beco das Galinhas. Lembra-se também que Godofredo Coutinho é quem supria Macau de água. Ele era proprietário de caminhões e buscava a água em Pendências. José de Arimatéia também se lembra que existiam outras cisternas na cidade. Vejam bem, estamos falando das décadas 60/70, porque antes ainda era mais penoso.

Por esse tempo existia em Macau a profissão de “botar água de ganho”. Era assim: profissão? Eu boto água de ganho! A expressão “de ganho” remonta à escravidão. Muitos senhores compravam escravos para o trabalho nas ruas: vendedores, serviçais e estes eram chamados de “escravos de ganho”.

Foto autor não identificado, 1940?1950, aguardando o bote no cais da Prefeitura, Arquivo: Francisco Gama

Vejam como era nas décadas 50/60: Zé de Hipólito, nosso inestimável colaborador disse: “Sofri muito na minha infância com a  falta d’água. Tinha que enfrentar enormes filas para comprar a água de vinha de Barreiras pelos botes que atracavam por trás do Duque de Caxias. Minha mãe ficava esperando a minha chegada para os afazeres domésticos. Não era fácil, você tinha o alimento mas não tinha a água.” Lembra-se de Edinho e Toinho de Zé Dantas, Zé Epifanio e os irmãos Perneta e Edinho, todos da rua do Cruzeiro e que eram seus companheiros de buscar água dos botes de Barreiras na rampa por trás do Duque.  Lembra-se que nos domingos, depois do jogo passava na Rampa do Matarazzo e dava um mergulho no rio e depois ia tomar banho de água doce em sua casa.

Foto de autor não identificado, 1940?1950, Lancha Soledade que trazia água de Barreiras para a CCN e seus funcionários., arquivo: Getulio Moura

Há pouco tempo um macauese que fez contato conosco nos lembrou que o Chefe da Estação de Trem prestou um grande serviço à população de Macau na distribuição da água. Zé de Hipólito também se lembra desse fato e diz que era um dia de festa a chegada do trem de água. Um dos aspectos interessantes dessa pesquisa seria sobre o trem da água.

Foto autor não identificado, 1940?1950, aguardando o bote de aguada na rampa da prefeitura, arquivo: Francisco Gama

José de Arimatéia também se recorda das várias rampas que existiam ao longo do rio. Lembra-se também rampa de seu Modesto. O pai de José de Arimatéia, seu Narciso, morador de Barreiras trabalhou no bote Fé na Providência, da prefeitura. Seu Nininho, já falecido e que morava em Barreiras também trabalhou nos botes da prefeitura e falava das dificuldades da navegação.

O grande problema das embarcações que traziam água de Barreiras era a dependencia da maré e do vento e por isso não havia um horário certo para atracar nas rampas. As filas que se formavam eram enormes.

Da equipe do baú de Macau.