Sem presente não há futuro para a criança macauense

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Nazareno hoje, é Professor. Ele é um daqueles jovens que conheci nos 80, lutando por cidadania em Macau. Nazareno é um dos que não mudaram de lado e nem desistiram. Continua lutando por cidadania. E eu fico feliz por isso. O Professor Nazareno nos mandou esta crônica como observador arguto das maldades que são cometidas em Macau, agora com as crianças. Sem um  presente, qual o futuro da criança macauense? É a indagação que faz o Professor Nazareno.  De Claudio Guerra para o baú de Macau.

12 de Outubro de 2011. Sem um presente, qual o futuro da criança macauense?

[*] Nazareno Félix

Foto autor não identificado, 7/9/1936, alunos do G E Duque de Caxias, arquivo: Professora Anaíde Dantas

O prefeito constitucional de Macau ordenou e os seus subalternos mais próximos cumpriram. E o feriado de 12 de outubro de 2011 é
anunciado pela voz alegre e potente do locutor oficial. Uma espécie de arco-íris em semicírculo serve de fundo para o imenso palco. Um artista da terra, como é costume dizer por aqui, abre o evento com uma música infantil que foi sucesso a cerca de 30 anos, o que faz com que os pais e as mães das crianças de hoje se lembrem do seu tempo de crianças…

Foto Sávio, 2009, Crianças do Porto do Roçado assistindo a apresentação do Grupo Alegria Alegria de Natal na FM Solidariedade, arquivo: Comunidade RN

Chororó é uma das atrações. Chororó é o palhaço, espécie de bobo da corte, que foi contratado para dar à festa da criança macauense o indefectível tom circense. O pão vem em forma de cachorro-quente, acompanhado de refrigerante, que será distribuído à criançada macauense, que também se deliciará com pipoca.

Uma coisa boa, nesse início de festa: as autoridades acharam melhor não discursarem. Crianças são imprevisíveis; não se sabe como reagiriam a um discurso dos cerca dos oito, nove, ou dez honrados gestores públicos; como tem acontecido nos últimos discursos feitos pelas autoridades para platéias de crianças, estas tem deixado as tais autoridades extremamente constrangidas… Elas, as sorrateiras autoridades, só vão aparecer no fim…

Foto Helder Marques, 1994, crianças nas aulas do BB Educar Educação de Adultos, arquivo: o baú de Macau

Está aberta a festa da criança macauense. Algumas centenas de crianças macauenses se espalham no largo da Rodoviária. A cada intervalo do cantor e sua banda, o locutor exulta anunciando a Festa da Criança Macauense. Aos poucos, filas de crianças macauenses vão se formando em frente aos brinquedos. As mães seguram suas crias, que não conseguem esconder a ansiedade pela sua vez de brincar: um pula-pula, miniaturas de motocicletas, que andam de verdade, um cubo com milhares de bolinhas plásticas coloridas que serve como piscina, uma espécie de castelo colorido de lona, inflável, com um touro mecânico, de plástico, que espera ser montado assim que a criançada puder entrar. As crianças, inexplicavelmente, quase não sorriem. Parecem muito ansiosas, como é de se esperar num momento deste. As filas vão aumentando em cada um dos brinquedos. As barracas das comidas, porém tem as filas maiores. Uma barraca afastada dos brinquedos é guardada por uma equipe de segurança: nela estão algumas centenas de brindes que serão distribuídos para as crianças macauenses. O locutor oficial chama os organizadores oficiais do evento para anunciar algo. O organizador oficial do evento fala para a criançada. E chama todas para fazer uma fila na lateral do palco, para que possam receber uma espécie de ficha, para que possam receber os brinquedos. Então, mais uma vez, na voz do locutor oficial, a empolgação se faz notar. Ele chama as crianças para receber a ficha.

Foto Savio, 2009, crianças do Porto do Roçado assistindo apresentação na FM Solidariedade, arquivo: Comunidade RN

Primeira decepção: o organizador oficial da festa da criança macauense, sem pudor, avisa que as fichas para receber os brinquedos foram entregues aos diretores das escolas da rede municipal. As crianças da rede estadual, então, mesmo sendo macauenses, não vão receber nenhum brinquedo na festa da criança macauense. A fila que se formara, maior que a fila do cachorro-quente se desmancha rapidamente.

A fila dos brinquedos desaparece rapidamente; a fila do cachorro-quente agora é a maior. Pelo menos o cachorro-quente, o refrigerante, o picolé e a pipoca não serão apenas para as crianças macauenses que estudem nas escolas da rede municipal. Segunda decepção: o cachorro-quente, o refrigerante, o picolé, e a pipoca não são suficientes nem mesmo para as crianças macauenses que estudam nas escolas da rede municipal. Uma mãe pergunta por que só as crianças das escolas do município têm direito, enquanto o locutor oficial anuncia uma vez, e uma vez mais a grande Festa da Criança Macauense… Algumas crianças chegam de repente e descobrem que o cachorro-quente acabou. Criança gosta muito de cachorro-quente com refrigerante. Marquinhos Show canta: “Mais raparigueiro do que eu, só papai, só papai, só papai! Mais raparigueiro do que eu, só papai, só papai, só papai!”. Marquinhos é um dos artistas da terra. Os outros resolveram não aparecer.

Foto Helder Marques, 1994, crianças participando das aulas do BB Educar, arquivo: o baú de Macau

A terceira decepção está por vir. Pela quantidade de caixas com
pacotes, muitas das crianças macauenses que estudam nas escolas da rede municipal ficarão sem os seus esperados presentes. As crianças macauenses que estudam nas escolas da rede estadual ou particular, embora sejam macauenses iguais às suas colegas que estudam nas escolas do município, infelizmente não vão receber presente na Festa da Criança Macauense.

A Festa da Criança Macauense, com promessas de cachorro-quente com refrigerante, picolé, e pipoca para as crianças macauenses é,
flagrantemente, mais uma decepção. O público de crianças não
atinge a expectativa dos organizadores e do locutor que exulta cada
vez que anuncia os patrocinadores da festa. As mães das crianças
não são mais tão ingênuas. Uma mesma pergunta a dois senhores
distintos, ambos assessores do chefe do executivo macauense: “No
meio dessa criançada toda que hoje está aqui, teria alguma que
passou os seis primeiros meses do ano sem merenda em sua escola?”. “Certamente”, disse convicto e decepcionado o primeiro; o
segundo, fez uma espécie de muxoxo, e olha ariado como quem dissesse que não tinha participação na coisa…

As crianças macauenses que estão na festa obrigam-nos a uma reflexão. Principalmente as crianças que estudam nas escolas da rede municipal. Porque elas são tão importantes em 12 de outubro? Nos nove meses iniciais de cada ano elas são desavergonhadamente
abandonadas; são lembradas num dia de outubro, e em seguida são, uma vez mais, descaradamente deixadas à margem das políticas oficiais do gestor municipal no resto do ano!

Elas, as crianças macauenses das escolas do município, passaram o
primeiro semestre de 2011 sem merenda nas suas escolas. Elas, ainda hoje, voltam para casa antes de terminar o horário de aula porque falta merenda nas escolas. Porque falta merendeira nas escolas, porque falta professor nas escolas, porque falta água nas escolas. Porque falta espaço nas creches municipais para as crianças macauenses? Por que faltam colchonetes nas creches para o descanso das crianças macauenses? Por que faltam brinquedos nas creches e escolas das crianças macauenses? Por que faltam bibliotecas nas creches e escolas para as crianças macauenses? Por que falta transporte para as crianças macauenses que moram nos distritos e estudam na sede do município?

Por que pipoca, cachorro-quente com refrigerante, e picolé, além de uns brinquedinhos relâmpagos para as crianças macauenses somente no dia 12 de outubro? Nos outros 364 dias do ano elas deixam de ser crianças…

Uma criança sai meio desconfiada da fila dos presentes. Mãos abanando, sorriso amarelo no rosto, olhar triste, enquanto sua mãe tenta em vão dizer que os presentes eram somente para as crianças macauenses que estudam nas escolas municipais; vá esta criança entender a propaganda que a assessoria de eventos manda o locutor oficial fazer… Ela pergunta à mãe: “E por que meu colega ganha e eu não ganho?” Outra criança, menorzinha, chora. Sua mãe, visivelmente transtornada, soltando impropérios contra tudo e contra todos, diz que sua filha estuda numa escola municipal, mas não teve presente para ela…

Nenhuma das crianças sabe acompanhar as canções que a banda canta no palco. Sem um presente, qual o futuro da criança macauense?

[*] Manoel Nazareno Félix da Silva é Professor e colaborador deste sítio.

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