Cidades, ainda

0

Cidades, ainda [*]

[**]Vicente Serejo

 

Foto Autor não identificado, 1940? Procissão marítima de N S dos Navegantes, arquivo: Francisco Fernandes Maia

É verdade, não seriam tão poucas. Mas, talvez, também não sejam tantas as cidades perdidas. As minhas não seriam muitas se fossem físicas, geográficas, feitas de chão. E, no entanto, são muitas as cidades que vivem dentro de nós. Acomodam-se. Aninham-se nos quatro cantos da alma. E nunca é possível misturá-las como se fossem iguais. Cada uma há de ter sido vivida tão intensamente, a  seu tempo e lugar, que inventou-se a si mesma. Hoje, vê-las  diferentes, seria impossível a cada um de nós.

Foto Seu Santos, década 60, Câmara Cascudo e fundadores do Lions de Macau, arquivo: Getulio Teixeira.

E  nenhuma delas é mais mágica do que a cidade da infância. Para uns,  porque a deixaram nos confins de um tempo vivido; noutros, os que  nunca saíram, foi a cidade que partiu para nunca mais voltar. Daí  as cidades perdidas, as cidades mortas, as cidades magicamente  desaparecidas dos olhos, e por isso, carregadas do que há de mais  real. A realidade é um patrimônio que se ergue, camada a camada,  além do apenas real. Com a pedra e a cal das coisas inesquecíveis,  tão findas, tão eternas.

Tem  sido assim quando algum amigo mais de perto vai a Macau levado por  alguma estrada de verdade, e passa pela Rua da Frente. Voltam todos  cheios de razão. É feia, disparam os sinceros. Não tem nada,  resumem os exigentes. E fico imaginando minha rua, as casas  enfileiradas ao longo de um rio que hoje ninguém vê, A não ser  aqui e ali, no correr urbanizado daquele calçadão moderno que  margeia o mangue, agora que ficou próximo do lamarão onde as  barcaças agonizavam na infância.

Material de propaganda da campanha do Dr Jose Varela ao Senado, arquivo: Terezinha Bezerra

Ora,  Senhor Redator, a rua é minha. Foi feita por mim. Nela guardei o que  havia de mágico: o rio, as figuras humanas, a luminosidade das  manhãs, o mormaço das tardes e as suas noites varridas pelo vento  do mar. Com doutor José Varela e os seus óculos Ray-Ban, meu pai  com suas camisas de cambraia de linho, os vizinhos. O cheiro manso do  peixe cozido, o azinhavre das postas que chiavam na cozinha, o  perfume gorduroso da galinha cevada que morria para a festa do almoço  do domingo. A infância é sinfonia. O toque seco e monótono do calafate, o grito de ferro das marretas nas cavilhas, o golpe surdo das enxós dos carpinteiros alinhando os mastros estirados na beira da maré. E o perfume pobre das umburanas feridas, o cheiro de piche ardendo no fogo tinturando a linha d’água dos barcos com os seus verdes vivos e os seus azuis tão calmos? E os barcos que um dia morriam de cavernames abertos com suas vísceras, espetáculo melancólico que só percebi muitos anos depois?

A  quem explicar, tão inutilmente, a Rua da Frente, se os olhos de hoje  não enxergariam todo o esplendor de um tempo humilde e glorioso que  não volta mais? E os barcos chegando com as suas velas brancas,  cheias de vento? E as barcaças antigas, carregadas de sal, entrando  e saindo da barra, lentas como se tivessem medo do mar? E os meninos  com os seus pregões que anunciavam cocada, búzio, camarão? E a  vida, Senhor Redator, quem vai lembrá-la como se fosse uma canção?

[*]  crônica publicada no Jornal de Hoje, Coluna Cena Urbana, 13/10/2011. {**]   Vicente Serejo é macauense, jornalista e escritor. É autor de  Cartas da Redinha, dentre outras obras. Leia mais textos do autor em  em Literatura e Artes.