O algodão na história de Macau

O algodão  na história de Macau

No  excelente livro Um Rio Grande e Macau – que por incrível que possa  parecer não existem exemplares na Biblioteca Municipal de Macau –  trabalho exponencial do multimídia Getúlio Moura e fruto do seu  zelo pela história e amor pela terra que o acolheu, na página  217/218 fala sobre a cultura do algodão na região de Macau. Cita  números interessantes que nos levam a refletir sobre a importância  que o porto de Macau sempre teve para a economia nordestina e o  porque foi ao longo dos anos perdendo essa importância. Das suas  pesquisas, o escritor registrou que “Em 1887, o jornal O  Macauense lamentava o desperdício do caroço do algodão que,  enquanto se industrializava noutros países, no Brasil servia apenas  para complementar a alimentação do gado e o resto era jogado fora.” Um dos produtos que se fazia e se faz com o caroço do algodão é  a extração de óleo comestível. Na nova divisão internacional do  trabalho após a primeira guerra mundial, os capitais externos  aportaram para exploração de produtos primários: um deles foi o  algodão. Getúlio Moura registra que na década de 30 foram cinco  indústrias têxteis no Rio Grande do Norte, que beneficiavam o  algodão produzido em todo o vale do Açu. “Nessa época, se  fazia a prensagem de algodão em dois grandes prédios de Macau e  Pendências”. Ele também fala sobre a praga do bicudo surgida  a partir da década de 70.

Foto autor não identificado, 1940?, Prensa de algodão, arquivo: Leão Neto

Em 1981  quando cheguei em Macau o forte do financiamento da Carteira Agrícola  do Banco do Brasil ainda era o algodão.  A praga do bicudo existia,  mas era combatida com novas práticas de cultivo, variedades e também  novos inseticidas. Plantava-se muito em pequenas e médias  propriedades um tri consórcio de algodão, milho e feijão. A  variedade do algodão plantado era um tipo arbóreo que produzia por  até cinco anos.  O  interessante deste tipo de cultivo para  pequenos proprietários era a possibilidade de lavouras anuais de  milho e feijão usando a mesma terra do algodão. No final da década  isso já não existia mais.

Foto Seu Santos, decada 60, escolha da rainha do Algodão, jovem Núbia Pinheiro acompanhada do sr. Alfredo Teixeira, presidente da Associação Rural de Macau. O menino da foto é Albimar Melo. O local é a quadra de basquete na rua São José. Arquivo: Getulio Teixeira

Uma nova exigência do capitalismo levou  à extinção do subsídio aos juros do financiamento para essa agricultura de subsistência e o  fim dos pequenos e médios proprietários que plantavam o tri  consórcio de lavouras.  As grandes empresas interessadas na produção  de algodão e milho no Vale do Açu limpavam o caminho para a  produção dos seus transgênicos  e as vítimas foram estes pequenos  produtores, que com a extinção do  subsídio aos juros o que tornou proibitivo o financiamento bancário, não puderam mais ficar  no campo e vieram para as periferias das grandes cidades. Para ser ter uma ídeia, dos quase tres mil contratos que fazíamos na agência do Banco do Brasil em Macau em 1985 para os agricultores da região que plantavam o tri consórcio, após a retirada  dos juros subsidiados, contratou-se pouco mais de uma dezena de contratos e assim mesmo para os grandes produtores. É uma história a ser contada.

Imagem Wikipédia – capuchos de algodão pronto para a colheita

Hoje, estas famílias e seus descendentes compôem o que chamamos do exército de reserva do capital, são  os sem cidadania, pois o capitalismo na sua ganância sem fim e no processo de concentração do capital, tirou deles até o direito à terra e ao trabalho.

De  Claudio Guerra para o baú de Macau