Um poço d’água quente e salobra a despertar consciências

Um poço d’água quente e  salobra a despertar consciências em Macau.

Foto Claudio Guerra, 1982, Poço da Marechal, arquivo: o baú de Macau

Num tempo em que as  emoções são mais difíceis, pela idade e pela impotência diante  de tanta ignomínia, vem do Professor Nazareno um alento de que nem  tudo está perdido. Ele fala sobre um poço que está na memória de  muitos macauenses.

De Claudio Guerra para o  baú de Macau.

Nazareno, também nosso  colaborador guarda muitas lembranças do Poço da Marechal, ele diz  que ficou emocionado ao recordar um pedaço da sua infância e adolescência ao ver a fotografia do poço. Diz  Nazareno, hoje Professor e grande combatente pela cidadania que, A foto, imediatamente, me fez um daqueles  meninos com um calão nas costas, com duas latas de querosene jacaré quase cheias para levar para casa, e também para vender. Aqui  criamos a expressão botar água de ganho. E continua, Eu botei água de ganho no calão e roladeira, e apesar de estar  envolvido num processo que hoje sei inteira e profundamente perverso,  minha memória de menino, agora, me traz alegria, alegria ingênuo de  menino; eu ajudava mamãe em casa com o suado dinheirinho ganho com o  calão e a barrica. Centenas de meninos – as meninas iam para fazer  companhia aos irmãos, vez ou outra – foram colegas de calão e de  barrica. E diz mais: Muitos homens macauenses de hoje forjaram o que chamamos de uma  consciência crítica, coletiva naquele poço, no varão da barrica  ou com o calão às costas. E diz mais  ainda: E a imagem me fez outra vez muito,  mas muito mais ingênuo do que hoje sou, guardadas, obviamente, as mudanças decorrentes daqueles dias até hoje, quando lutamos não  mais por uma lata d’água.