Os comunistas vem aí!

Os  comunistas vem aí! Das recordações de um menino de Macau.

 

Foto Seu Santos, 1962, Ginasio do Padre, arquivo Getulio Teixeira

Foi  bem no começo de 1964 e as aulas já haviam começado. Saindo para o  recreio ele ouviu sua colega da carteira da frente falar para outra  que uma vizinha contara para sua mãe que os comunistas iam tomar  tudo do povo. Ficou preocupado, mas depois foi brincar no recreio e  nem pensou mais naquilo. Quando terminou a aula quis perguntar para a  menina, mas não teve coragem, era tímido com as meninas. Depois,  quando chegou em casa e viu sua mãe apreensiva, veio de novo o  pensamento que os comunistas tomariam as coisas das pessoas. Apalpou  seus bolsos e viu que suas bolinhas de gude estavam lá, todas, verdinhas e  transparentes. Foi até o guarda-roupa e meteu a mão por baixo dos lençóis empilhados e tirou de lá dois piões. Depois buscou um lata velha de óleo de comida no terreno baldio por trás da sua casa, abriu a lata com a faca que sua mãe tratava peixes e depositou suas bolinhas de gude, eram sete ou oito e os dois piões.  A divisa norte do pequeno quintal da sua casa era uma antiga fábrica  de charutos abandonada que ainda mantinha intacta a parede grossa de  tijolos grandes, bem maiores que os fabricados por aquela época. Foi  até lá e no canto da parede retirou um tijolão e no vão encaixou  a lata de óleo com seus piões e bolinhas de gude. O esconderijo era  seguro. Já usara outras vezes. Depois encaixou o tijolão e pensou:  Comunista nenhum vai levar minhas bolinhas de gude e meus piões.

Foto Seu Santos, 1960, trabalhadores com balaios, arquivo Benito Barros 1957-2010

Na sala, seu pai, pequeno salineiro, conversava com uma pessoa.  Olhou sorrateiro pela janela e viu que era um daqueles amigos do seu  pai que todo mundo dizia ser comunista. Assustou-se: Viche! será  que este comunista veio buscar as coisas da gente? E ficou  ouvindo a conversa. Dizia o amigo do seu pai que naquela semana já
era o quinto salineiro que entregava os pontos, ou seja, abandonara a  salina e a vendera a preço vil para as grandes empresas salineiras.  – É assim – dizia o comunista para o meu pai. – As  grandes empresas conseguem empréstimos com os bancos e ficam cheias  do dinheiro. Aí, baixam o preço do sal até eliminar os pequenos  salineiros. Estes, sem poder vender o sal a preço tão baixo,  entregam os pontos. Das mais de 40 salinas de Macau, só vai ficar  duas ou tres empresas grandes. É o que se comenta! E  meu pai só dizia, – Sim, sim… – Sim, sim…, olhando para o comunista com os olhos arregalados.

O  menino cresceu e seus interesses mudaram, as brincadeiras mudaram e  ele esqueceu por completo comunistas, bolinhas de gude, piões e  esconderijos.

 

Foto Seu Santos, 1960, Pirâmides de sal, arquivo Benito  Barros 1957-2010

Foi  muito tempo depois que ele surpreendeu-se ao ver sua cidade  abandonada. Prédios e casas abandonados. Uma cidade em ruínas. Numa  das vezes que veio a Macau, na esquina da sua casa, viu algumas  crianças brincando com bolinhas de gude. E ao recordar das suas  bolinhas de gude, teve consciência do que acontecera em Macau. E  constatou que foram as grandes empresas que tomaram tudo na região  salineira. Primeiro, as pequenas salinas, depois as médias, depois  os empregos. De trabalhadores, prédios, casas e terrenos que  precisaram, compraram tudo a preço vil. O resto,  abandonaram: trabalhadores, prédios, casas e terrenos.

de Claudio Guerra para o baú de Macau