O Bar Boa Sorte – ficção, por José Saddock

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O BAR BOA SORTE – ficção, por José Saddock

Seu Santos. década 1970, Praça da Conceição, Macau-RN

– Loucos. Voavam baixinho, quase tocando os telhados, aos gritos e aos goles do velho uísque, depois morreram… aos noventa todos morremos – estava quase falando, quando a bandeja me atacou pela esquerda, perguntando: – Mais uma, amigo? Era Wellington que vinha pelo lado errado e sentia dificuldade em pronunciar o meu nome…  O filme voltava à memória todas as vezes que me via diante daquela velha coluna avermelhada pelos flamboaiãs que adormeciam magistralmente na praça. A cena me afligia sobremaneira, como se revelasse o meu próprio fim. Também, depois de algumas doses de uísque nada se realiza como antes, há sempre uma incerteza à espreita e uma lupa nas retinas. Peço um tira-gosto. Àquela hora tudo era possível, até mesmo o olhar de um gato que me transfixava como raios lazeres, além das pessoas que jogavam sinuca. Fixei o olhar de volta e ele pulou ligeiro para o resguardo que se elevava à altura do balcão. Fiquei imaginando o que se passava na cabeça daquelas pessoas. Teria mais um? Não que o visse, mas havia sim, naquele velho bar, alguém além de nós. Meus sentidos pairavam diante de uma visão em que as imagens se confundiam e os movimentos se aceleravam desordenadamente. Agora os transeuntes que passavam por ali estavam todos dentro do bar, e nós, eu e os demais, estávamos na praça, numa inversão de tempo e lugar. Mas nessa onda que encrespava a imaginação, onde estaria o outro?! O ser oculto ou a minha semelhança, onde estaria? Olho pela janela para o outro lado da rua… Hum, será! Sim, era ele mesmo, de pé, em frente à coluna, fumando um longo e grosso charuto. Parecia-se com alguém que jogava sinuca.

Seu Santos, década 1970, Bar Boa Sorte, Macau-RN

E não era esse alguém, mas o ser oculto, pois estava vestido como um English Lord do século XIX, e vinha em nossa direção. Vi a sua mesa pronta (uma toalha de tecido xadrez com as cores do país, sobreposta por outra de seda branca com delicados bordados que seguiam ladeando uma fina e elegante varanda triangular; além de estar devidamente posta para o serviço), dependurada em uma das cadeiras uma boina feminina de tecido liso e cinza, presa por laços de tule, coisa realmente muito antiga. Quem a teria esquecido… Haveria ainda outra pessoa? Saí para fumar no desértico céu de Macau, esse céu cinza e triste, igual aos meus pulmões e a boina esquecida na cadeira. Fiquei de costas para a porta por onde entrara o homem oculto, o Lorde inglês. E o mais incomum: aproximava-se de mim uma bela mulher com olhos plenos de olhar carregados de azul – imaginei – viera pegar a boina e fazer companhia ao Lorde. Chegou e sentou-se com discrição. Pensei entrar e perguntar quem era aquela mulher tão bela – Sua esposa… Aha! Sua filha – mas não, voltei e passei a caminhar pela rua cinza e deserta, sob um misto de ausência e saudade azuis violeta.

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