A Grande farsa, por José Gomes

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A GRANDE FARSA [*]

A TV Cultura apresentou recentemente no Programa Roda Vida, uma entrevista com o Cabo Anselmo, onde ele tentou de uma maneira sarcástica ironizar os entrevistadores e o público que naquele momento assistia a entrevista. De uma maneira fria, o delator expôs toda sua sagacidade ao tentar se defender dos seus atos de delação. O Cabo Anselmo que participou do movimento dos Marinheiros no Sindicato dos Metalúrgicos em 25 de março de 1964, como um dos seus lideres, juntamente com outros colegas, no intuito de que os anseios  e reivindicações dos marinheiros, de poder casar no civil, votar,  estudar  e andar à paisana e ter uma vida digna, algo que a Marinha ainda não oferecia e continuava a praticar quase os mesmos atos da época da Lei da Chibata. O crápula, depois de fugir,  passou um período em Cuba, onde se preparou para a guerrilha, tornando-se assim um discípulo de Fidel Castro.  Vejam como as coisas mudaram. O Cabo Anselmo ao retornar ao Brasil, depois de ser preso, passou a ser a menina dos olhos do delegado Fleury, chefe maior da Repressão em São Paulo, juntamente com o Delegado Romeu Tuma.          Ele disse na entrevista, que tinha mudado, para que não houvesse tantas mortes do outro lado. Estranho como se muda inesperadamente de uma ideologia e convicção, principalmente ele que tinha ideais de um revolucionário e que fora treinando em Cuba, pudesse facilmente mudar de rota, deixando todos os seus companheiros da Associação dos Marinheiros, que lutavam por um mesmo ideal e que viam nele um ídolo, ser transformado num bibelô do golpe de 64. E ainda teve a petulância de dizer que estava com a sua consciência tranquila e em paz com Deus. É muito cara de pau!          Mas a saga de delator do Cabo Anselmo não para por aí. Muda para o Nordeste na busca de seus antigos companheiros que estavam em atividade na formação de uma organização revolucionária, com o intuito de fazer face ao golpe militar de 64 em plena fase de expansão de um governo golpista. Com a mudança de comportamento do Cabo Anselmo, já se começou a observar entre os seus companheiros, que ele seria um delator, chegando a um ponto numa reunião de um grupo, onde ele expôs seus pontos de vista, quase foi executado por um membro do grupo, com um revolver na mão apontando para sua face, mas com sangue frio, contornou a situação merecendo um voto de confiança dos que faziam parte do grupo. No livro Marinheiro Só, que hoje será lançado no DCE na UFRN, o escritor Cláudio Guerra, ouviu vários depoimentos da minha irmã Geni Melo, casada com o Cabo José Manoel da Silva que foi um dos delatados do Cabo Anselmo, inclusive a sua companheira Soledad, uma paraguaia grávida dele. Minha irmã foi procurada em Toritama-PE.,  pelo Cabo Anselmo, para que Soledad fizesse um aborto em Caruaru, no que minha irmã foi totalmente contra.         O meu cunhado e Soledad juntamente com mais cinco companheiros, foram executados na famosa chacina da Granja São Bento, em Pernambuco. O escritor Cláudio Guerra, depois de mais de três anos de pesquisas, trás a tona, o caráter do Cabo Anselmo, que com certeza os relatos do livro, servirão de base para que a Comissão da Verdade venha a conhecer uma parte dos obscuros porões de um golpe militar que durou mais de 30 anos. [*]Publicado no Jornal Tribuna do Norte/Natal-RN, Caderno Viver  Página 3, 26/10/11, Texto de José Gomes de Melo Filho.(Gomes de Melo), Professor  Aposentado e Compositor.

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