A fortuna do verão, por Vicente Serejo

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A fortuna do verão [*]

Vicente Serejo [**]

Os dias amanhecem mais cedo, Senhor Redator, como se a primavera clareasse o sol com essa luminosidade que cobre todas as coisas. Nada mudou e, no entanto, há uma alegria de viver e inaugurar cada manhã que nasce. Sei por estes morros daqui, no amarelo dos paus d’arcos e das craibeiras em flor. Depois, virá o lilás dos sucupiras até que o calor do verão apague tudo e o vento Leste venha soprar, manso e fraterno, refrescando as tardes azuis que encantam os dezembros renascidos aqui a cada ano.

Foto Getulio Moura, 2009, salinas de Macau, arq. Getulio Moura

Nasci na beira do mar e por isso venho de um país muito bom e muito pobre, rico de sol e de poucas chuvas no ano. E, se chovia, não era do gosto dos salineiros que precisam para a cristalização dos brancos cristais que se formam em camadas sobre as águas vermelhas de tanto grau. Foi assim que aprendi, vendo nascer as mais alvas salinas do universo, como no poema de Edinor Avelino. Pode não ser muito, mas esse encantamento é a fortuna que me coube ter nesse imenso latifúndio de lembranças.

Não tenho saudade daquilo que nunca tive e nada a vida negou como se tivesse prometido. Ora, pois, seria injusto cobrar. Na bagagem, trouxe ouro, incenso e mirra e, como um rei, tudo dei de presente aos dias vividos diante de um mar que se não era antigo, tinha o mesmo mistério de ser e de não ser. Colecionei as horas e guardei os dias, pedaços da vida repartida. E se não ergui um reinado e não me fiz um rei, também nada levarei comigo. Nem mesmo o ouro que mereci a cada descoberta do mundo.

Foto J R Guerra, 2010, Camapum em Macau, arq. o baú de Macau

Um dia, diante do olhar de pedra do gigante Adamastor que se derramava sobre as águas tristes daquele Tejo também feito das lágrimas de Portugal, e olhando o mar que se estirava lá bem depois dos longes, descobri ser o mesmo da minha infância. Era a revelação do universal e do eterno. O mar sem fim que os homens encheram de monstros terríveis. O mar do medo, dos mistérios sedutores. Aquele mar de Ulisses que preso ao mastro ouviu tudo para que o canto das sereias não lhe seduzisse em vão.

Daí esse verão como um exílio na sua solidão sem mágoa. O destino de escrever para enfrentar a dor de viver sabendo  que todas as conquistas são inúteis. Como diria Cioran, o romeno Emil Cioran, na sua grande amargura, ser livre é exercitar-se para o nada. Sem obrigação de viver de bem com a vida. Ou não vier. Sem cobrar a fortuna que mesmo justa seria falsa. A glória fácil dos mitômanos, dos loucos, dos delirantes filhos de Eva que refogam o falso arroz da glória como se viver fosse prêmio.

A alegria do verão é feita estranhamente dos dias feitos para o abandono. Como diria Clarice Lispector, para o exercício da palavra como dom do corpo, quando confessa que não é intelectual e, por isso, escreve com a carne. Esse corpo que se deixa abandonar nas sensações de um dia morto. Tão morto e tão bom como os seus mortos. Finados nas horas do tempo vivido a cada dia. Como Cioran, a vida opera por cacos. Como se os pedaços, livres de tudo, e de tão íntimos, dispensassem o reencontro. [*] publicado no caderno Cidade, Coluna Cena Urbana,de Vicente Serejo [serejo@terra.com.br]  Jornal de Hoje, 3/11/2011. [**] Vicente Serejo é macauense, jornalista e autor de Cartas da Redinha, dentre outras obras. Leia mais em Literatura e artes.