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Fotos de Getúlio Moura. Visite http://gmxnafoto.net

A Carnaúba

A Carnaubeira, texto de Domingos Barros, in Leituras Potyguares de Antonio Fagundes, 1933, edição fac-similar do Sebo Vermelho, Natal, 2009.

             A carnaubeira é a palmeira typica do sertão, exemplo de resistência e de poder productivo. 

            Vede. O sertão escalda. Tudo é devastação e morte. Das juremas e das imburanas nas caatingas só restam os ramos seccos e nus, e nos prados o resíduo pulverulento das forragens calcinadas, dando á morna paisagem uma pungente impressão de abandono e um infinita tristeza. Entretanto, olhae, há seres que vivem, qual salamandra da fabula, nesta fornalha. E a carnaúba immortal eleva, no campo desolado, bem alto, sua alterosa coroa de folhagem. E são verdes brilhantes folhas espalmas voltadas immoveis para a amplidão, como protesto solemne da uberdade da terra contra a inclemencia do céu.

            Não há planta mais útil e mais prestimosa.

            Só a carnaúba faz toda a casa do sertanejo.

            O tronco dá o madeiramento, os esteios, as linhas, as terças, os caibros, as ripas – a ossatura geral da construcção, e as palhas fornecem a cobertura do tecto e o revestimento das paredes. Mais ainda. Todo o mobiliário e todos os utensílios são de carnaúba. As prateleiras, as mesas, os bancos, o armário, são de taboas de carnaúba. Porque esta palmeira excepcional, ao contrario de todas as demais, tem um centro medular tão duro e tão rijo como a peripheria, e assim fornece taboas sólidas e resistentes.

            A palha forte e lisa, presta-se á confecção de accessorios os mais variados. Tecem-na em esteiras, bellas e excellentes esteiras, e isto constitue uma grande industria dos pobres, sobretudo das mulheres e das creanças. Fazem também urupemas, as peneiras únicas usadas no Nordeste, a vassoura, e o abano e até saccos sólidos e duradouros para o transporte e acondicionamento dos cereaes.

            Mas, dentre todos, são os chapéus os mais bellos productos da palha.

            Há-os de todos os feitios e de todos os preços, desde os mais toscos e grosseiros, infinitamente baratos, até os de tecidos finíssimos tão artísticos como os de Chile e Panamá.

            A palha macerada e batida reduz-se a fibras, e temos nova serie de productos – os artefactos de fibra: as cordas, os trançados e até as redes – o leito predilecto dos nortistas.

            A carnaúba fornece uma fécula nutritiva do mesmo valor alimentício que a mandioca. Seus fructos, abundantes, quando verdes, constituem boa ração para os gados. Seccos, fornecem um óleo fino comestível, e torrados e moídos, dão uma beberagem semelhante ao café.

            As raízes são medicinaes.

            Mas, dentre tantos productos, a cera, é o mais importante e valioso. É uma substancia particular, misturada de etheres sólidos de ácidos graxos superiores.

            É dura e quebradiça, de fractura conchoidal, insípida e inodora, fusível acima de 90 graus. Bom isolador  de calor e de electricidade, ardendo com uma chamma brilhante, rica em carbono.

            Existe na superfície das folhas, em tênue cutícula, como um vernis protector. A mais bella cera, a de um amarello claro, é retirada das folhas mais tenras, antes mesmo que se tenham expandido em palmas. Mais idosas, dão cera mais escura. Há certamente um principio oxidável que, pela acção do ar, soffre uma profunda alteração na cor.

            Eis como se processa para recolher a cera:

            O operário, armado de uma longa vara, formada pela articulação de tres ou quatro secções, e trazendo na extremidade uma pequena foice – o trinchete – apropriado ao mister, golpeia o pecíolo e a cada golpe desce uma palma.

            São recolhidas e postas a seccar. Opera-se a retração dos tecidos e a cera, desprovida de elasticidade, não podendo acompanhá-los em seu movimento regressivo, estala e fragmenta-se em finas e levíssimas escamas. Cumpre separá-las das palhas. Operação delicada. O menor sopro occasiona grandes perdas, pela excessiva tenuidade da substancia.

            Abrem, no centro abrigado do carnaubal, uma clareira, recobrem-na de esteiras, amontoam as palhas e, pela calma da madrugada, na calada do vento, como dizem, batem rijamente e sacodem as palhas. O pó é logo recolhido e guardado antes da queda do nordeste. Não resta mais que fundir, para obter os pães. A fusão opera-se no seio da água a ferver para evitar a alteração por parte do calor directo. A cera, como um óleo amarello, sobrenada, o liquido em ebulição, e as impurezas ferrosas precipitam-se no fundo da caldeira. O óleo, quente, é vasado em moldes e promptamente solidifica-se em pães.

            A cêra de carnaúba é muito procurada e tem boa cotação nos mercados americanos. Nossos carnaubaes rendem annualmente  350 a 400 mil kilos de cêra.